ACADEMIA
Luciana Veras
Da equipe do DIARIO
Guel Arraes, reinventor da televisão brasileira, nome de núcleo na Rede Globo, diretor dos filmes O Auto da Compadecida, Caramuru e Lisbela e o Prisioneiro e de programas como Armação Ilimitada, TV Pirata, Brasil Legal, A Grande Família, é, em qualquer ocasião, bola da vez na mídia. Elogiado ou apedrejado pela aproximação que faz entre cinema e TV, o produtor e cineasta pernambucano ganhou a chance de ser estudado de modo mais aprofundado; agora, com a publicação do primeiro Documento de Trabalho do Grupo de Pesquisa em Mídia e Cultura Contemporânea da Universidade Católica de Pernambuco, é reafirmado como tema de uma análise que se descortina.
Por trás dela, cinco professores da Unicap, cada um dedicado a um aspecto da produção artística de Guel: Alexandre Figueirôa, Aline Grego, Cláudio Bezerra, Nadilson Manoel e Yvana Fechine. Se Figueirôa estuda a interferência do cinema na televisão feita pelo primogênito do ex-governador Miguel Arraes, Grego detém-se no processo criativo de uma mente fertilizada comincontáveis referências; se Yvana rastreia sua contribuição para a renovação da linguagem televisiva, Bezerra se debruça sobre as matrizes do humor utilizadas por ele, e Nadilson, sobre o contexto sociológico e mercadológico que o cerca.
A idéia de "destrinchar" Guel Arraes e observá-lo sob vários ângulos partiu de Yvana Fechine. O grupo de pesquisa, formado em 2001, engatou seu primeiro projeto no ano seguinte, ao escolher "um objeto que permitisse o trabalho coletivo e interdependente, amplo o suficiente para ser abordado por diferentes perspectivas teóricas", como lembra Yvana. Daí se sucederam dois encontros com Arraes: no primeiro, em Paris, durante o 4º Festival de Cinema Brasileiro, Figueirôa o entrevistou sozinho; no segundo, em agosto/2002, Guel recebeu vários interlocutores numa pausa na busca por locações para Lisbela.
É da compilação desse depoimento e de dois artigos, um assinado por Yvana, outro por Alexandre, que se constitui o documento de trabalho, apresentado no XXVI Congresso da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, há três semanas, em Minas Gerais. "Antes, eu e Yvana havíamos publicado uma entrevista com Guel na revista Galáxia, da PUC-SP, e agora resolvemos editar cem cópias do documento e distruibuí-lo. É uma pesquisa em progresso e a idéia é que este seja uma espécie de balanço do que realizamos até agora", explica Figueirôa.
Yvana ressalta que a pesquisa nada tem de work in progress. "Nosso processo não é o produto", diz a professora/pesquisadora. O "produto", desejam os cinco envolvidos no projeto, é um livro, sem prazo para ser concluído. "A proposta é que publiquemos um segundo documento, em agosto de 2004, com outros artigos e considerações. Será assim até concluirmos, quando pensamos em publicá-la".
Caso a publicação saia - e não haveria, diante da originalidade da pesquisa e da atualidade de sua temática (O Auto da Compadecida levou mais de 2 milhões ao cinema; Caramuru fez perto de 1 milhão e Lisbela, em cartaz há um mês, já ultrapassou essa marca) - e o trabalho do grupo se transforme em uma ponte para outras leituras, outros juízos sobre a obra de Guel, coroará também a acolhida positiva que a pesquisa vem encontra no meio acadêmico. Em novembro, Aline Grego, Yvana Fechine, Alexandre Figueirôa e Cláudio Bezerra compõe uma mesa de debate na reunião da Socine, a Sociedade Brasileira de Estudos do Cinema. O título: O cinema de Guel Arraes. Porque, como as cinco ramificações da pesquisa advogam, Guel faz cinema na televisão. E vice-versa.