Edição de Domingo, 28 de Setembro de 2003
 

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Um filho do século

O último (acho eu) livro do palestino Edward W. Said, que morreu esta semana, foi escrito - ou conversado, pois é a transcrição de um dálogo - com o maestro israelense nascido na Argentina, Daniel Barenboim. Ainda não li o livro, li a respeito. "Paralelos e paradoxos" não é importante como "Orientalismo", "Cultura e imperialismo", "Representações do intelectual" e "Reflexões sobre o exílio", mas é um testamento apropriado, pois representa bem tanto a verve multicultural de Said quanto a sua postura pessoal e política.

  Os dois amigos conversam sobre música e Said, que fez sua fama como crítico literário, mas era um bom pianista e também fazia crítica musical, não destoa do maestro. Os dois tocam na questão do Oriente Médio, comentando, entre outras coisas, a controvertida decisão de Barenboim de reger uma obra de Wagner em Tel Aviv, há alguns anos, e o principal defensor da causa palestina no mundo intelectual e o principal músico de Israel concordam que a arte deve ser preservada de todos os preconceitos,e também afinam suas crenças num humanismo básico que deve prevalecer sobre os bárbaros dos dois lados.

  O diálogo e o livro, frutos de uma longa convivência, explicam porque alguém como Said, apesar de muito combatido, conquistou o respeito mesmo de quem não perdoava seu proselitismo pro-palestino, e sobreviveu com honras no mundo acadêmico de Nova York. E a própria convivência dos dois é um modelo para os sensatos no Oriente Médio. Said nasceu em Jerusalem durante a ocupação inglesa, cresceu no Cairo e estudou nos Estados Unidos. Não era muçulmano, era cristão. Não era um refugiado típico, sua família tinha dinheiro. Não admira que um dos seus temas preferidos fosse o exílio, como desterro e como sentimento.

  Com "Orientalismo", que denunciava séculos de mistificação sobre o Oriente no Ocidente, ele se credenciou como o melhor teórico da reação pos-colonial, anti-eurocentrista, nas guerras culturais do nosso tempo, falando de dentro do monstro sem perder a urbanidade. O título do seu livro de memórias,"Out of place", fora do lugar, é bom, mas ele poderia ter adotado o título da autobiografia do americano Ben Hecht, "A child of the century", um filho do século. Edward W. Said foi uma cria exemplar do século em que a experiência do exílio foi, ao mesmo tempo, a maior tragédia e a maior aventura intelectual.

Luis Fernando Verissimo








 

 
 
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