CERATOCONE
No mesanino do número 737 da rua Grão Pará, bairro de Santa Efigênia, em Belo Horizonte (MG), o entra-e-sai de clientes não dá trégua. É lá que funciona o Centro de Oftalmologia Avançada e nele, a Clínica de Olhos Dr. Paulo Ferrara. Se o nome, de imediato, não sugere a importância do dono, basta lembrar que, graças a ele, uma doença de nome esquisito - ceratocone - deixa de figurar entre as maiores probabilidades de transplante de córnea. Até 1986, a ectasia corneana, que acomete uma em cada mil brasileiros, impacientava os portadores por trazer à reboque o perigo da cegueira. Mas o médico estava atento: criou uma órtese composta de dois segmentos semi-circulares, de espessuras variáveis, medindo 5mm de diâmetro e confeccionada em Perspex CQ Acrilic. Pronto: nascia o Anel de Ferrara.
Com o anel - bem tolerado pelo organismo, sem risco de rejeição - o paciente livra-se das incômodas lentes duras, da probabilidade de enfrentar o transplante e passa a ter a acuidade visual sensivelmente melhorada, segundo demonstram as pesquisas. Foi tão bem aceito que passou a ser produzido em larga escala. A empresa Ferrara Ophthalmics, segundo explica o próprio dono, dando uma pausa na consulta, fabrica de 150 a 200 destes anéis por mês. O modelo brasileiro pode não concorrer com o americano em quantidade produzida, mas já superou o concorrente no essencial - o desempenho na correção da miopia é cinco vezes maior.
Professor da Universidade Federal de Minas Gerais, Paulo Ferrara, 52, explica que existe duas formas da doença - a frustra, que não representa nenhuma ameaça mais grave, e a evolutiva. No último caso, quando os recursos comuns já não surtem praticamente efeito, a solução é mesmo partir para a colocação do anel. Mas a cirurgia não representa nenhum bicho-de-sete-cabeças. Dura entre dez e quinze minutos e o efeito começa a ser percebido em torno de três horas, embora o novo grau só seja definido depois de três meses. "Não é um procedimento cosmético, mas um recurso que ajuda a tornar mais eficaz o uso de lentes e óculos, por exemplo", vai logo avisando Ferrara a quem pensa que o anel faz milagres, como promover a cura da doença.
CUIDADOS - O ceratocone é hereditário, provoca afinamento e deformação progressiva da córnea, e atinge sobretudo pessoas jovens, entre 12 e 30 anos. De acordo com Paulo Ferrara, que vive pelo mundo explicando, em palestras e congressos, os benefícios do seu anel, pelo menos uma mania deve ser evitada por quem não quer ter complicações com a doença: passar as mãos nos olhos, gesto que pode levar a traumatismos. O consumo diário de um grama de Vitamina C também não deve deixar de figurar entre os cuidados básicos. Ainda segundo o médico, a doença não é piorada por nenhum fator externo como, por exemplo, o uso intensivo de computadores.
Sinal de que os benefícios do anel já chegaram aos ouvidos da população é a busca por uma consulta com Ferrara. Há períodos em que só existe disponibilidade de atendimento para quatro meses depois, mesmo se tratando de usuários que desembolsam, à vista, algo em torno de R$ 700,00 (incluindo quatro exames). Mas a luta contra o ceratocone começa exatamente por aí - pela paciência.