Apesar de serem maioria na Câmara, deputados reclamam que não são ouvidos sobre acordo de líderes
BRASÍLIA - O sentimento de atuar como mero apertador de botão em votações negociadas por um grupo seleto de líderes é freqüente entre os deputados do chamado baixo clero, embora a maioria prefira não confessá-lo. Os mais novatos, perplexos com o ritmo frenético e acelerado dos acordos das reformas da Previdência e tributária, fechados minutos antes da votação, admitem a frustração.
"A sensação é de votar sem conhecimento mais profundo, apenas para cumprir uma etapa do processo. Assusta e chateia o sentimento de desimportância: estou aqui numericamente, ao lado de uma maioria que serve apenas para apertar botão", desabafou o deputado Humberto Michiles (PL-AM). Filho da primeira senadora brasileira, Eunice Michiles, ele entende que a dinâmica do Congresso impede o conhecimento prévio de todos os detalhes e a participação dos 513 nas reuniões. Mas acredita que algumas medidas evitariam o sentimento de mero avalista de decisões tomadas por poucos. Sugere, por exemplo, um prazo de 24 horas para pôr em votação umacordo firmado pelo colégio de líderes.
Os novatos aprendem rápido as regras de participação efetiva nas votações: ser especialista em uma área e ganhar prestígio na bancada. Nem sempre o peso das urnas é suficiente para garantir voz. Eleito com 500 mil votos, o deputado Patrus Ananias (MG) é do PT, mas não conseguiu ainda mostrar influência nas decisões do Governo.
Também no primeiro mandato, o deputado Chico Alencar (PT-RJ) condena o que classifica de "desconstituição da bancada petista". "Na reforma da Previdência, na tributária e na Lei de Falência o debate foi pífio. Até agora, o maior voto que fomos chamados a dar foi o de confiança", avalia Chico, para quem o açodamento na votação de acordos fechados demonstra a fragilidade tanto de mérito quanto de palavra empenhada pelos líderes.
O vice-líder do Governo, Professor Luizinho (PT-SP), admite que o tempo do Executivo para a votação de algumas matérias às vezes atropela o tempo do Legislativo. Ele aconselha os colegas do baixo clero a participar ativamente das reuniões da bancada e procurar deputados especializados no tema em discussão. Comenta que nem os líderes são capazes de dominar todos os assuntos e que, por isso, delegam tarefas. Luizinho descarta, no entanto, idéias como a apresentada por Michiles, de um intervalo de 24 horas para votar um acordo fechado por líderes.
"O acordo é nuvem no ar. Depois de fechado tem que ser deliberado, não dá impedir isso. Assim como é impossível que 170 milhões de brasileiros votem em todas as matérias que tramitam no Congresso, e, por isso, elegem seus representantes, também os líderes representam os deputados nas reuniões e fecham acordos em seu nome. É preciso confiar nos líderes", argumentou.
Não se sabe se transtornada pelo sono, a deputada Perpétua Almeida (PCdoB-AC) acabou cometendo uma grosseria com os suplentes, chamando-os de bestas. Ela reagiu às críticas da oposição, de que não se poderia votar num relatório que fora entregue pouco antes, provocando gargalhadas no plenário. "Alguns disseram que estaríamos votando sem saber; outros, que estaríamos votando de forma leviana; outros, que estaríamos votando às escondidas. Isso é um acinte à inteligência deste parlamento, porque aqui não há menino bobo. As bestas ficaram na suplência", disse Perpétua.