Crítica literária: Eduardo Portella
O I Congresso de Crítica e História Literária, no Brasil, foi o grande acontecimento literário do ano de 1960. Organizado por Eduardo Portella, a visita de Sartre ao nosso País, resultou desse evento. Portella o convidara no ano anterior, o que lhe permitiu ir antes à Cuba, chegando depois ao Recife, onde esteve presente às sessões do Congresso, sendo um dos conferencistas. No Recife, Simone de Beauvoir adoeceu, tendo sido tratada pelo grande cirurgião, professor Luiz Tavares, um homem que conhecia mais literatura que muitos escritores que militavam na vida intelectual da cidade. Foi nesse Congresso que as disciplinas Teoria da Literatura e Lingüística foram propostas ao Governo para constar do currículo mínimo dos cursos de Letras das universidades brasileiras.
Graças a Eduardo Portella, os novos métodos que vinham renovando a crítica literária no mundo, logo se tornaram conhecidos no Brasil, um dos primeiros países a ter ampla visão das novas técnicas de análise da obra de arte literária. Tornaram-se bemconhecidos aqui Kenneth Burke, T.S. Eliot, Allen Tate, Cleanth Brooks, Yvor Winters, R.P.Blackmur, Alfredo Kazin, Geofrey Hartman, R.P. Warren, e como um fato novo: a Anatomia da Crítica, de 1957, do canadense Northrop Frye. O Formalismo Russo era muito velho, mas a "constante de tempo" de Max Planck parece não haver funcionado em relação a ele. Só chegaria à Sorbonne na década de 60, onde Claude Levi-Strauss o renovou ao lhe dar a dimensão estrutural. No Brasil, ele passou a ser a grande febre, em algumas universidades do Sul.
Vencida a primeira fase de sua formação espiritual, Eduardo Portella que entrara na crítica de "rodapé" como tática para, "dentro do sistema", estrategicamente combatê-lo, volta-se para estudos literários apoiados na estilística, logo passando à hermenêutica. Talvez, influenciado por Derrida, afirma no primeiro capítulo de Fundamento da Investigação Literária que a progressiva desvalorização das mais variadas formas de conhecimento, apreensão ou manifestação do real, assinalam a opção declaradamente científica do pensamento Ocidental.
Sua posição enfraqueceu a recepção do Estruturalismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro, o que representou uma vitória contra a maré estruturalista que avançava em todas as direções. Com uma ação que se assemelhava à dos empiristas pragmáticos do Clube Metáfísico da Universidade Harvard, em fins do século XIX, entre os quais Peirce e William James, o trabalho de Eduardo Portella foi realmente de muita importância. Ele reafirmou que "a crítica literária deve preservar a heterogeneidade para implicitar a verdade da obra". Ao dizê-lo, Eduardo Portella parecia estar sob influências de Bataille.
Jürgen Habermas, no ensaio Entre Erotismo e Economia Geral, que constitui o capítulo VIII de seu livro O Discurso Filosófico da Modernidade, afirma que foi nas publicações desse período que Bataille desenvolveu, pela primeira vez, o conceito de "heterogêneo". O termo se refere aos elementos que não aceitam à assimilação das formas burguesas de vida, de suasações inconscientes e até "do alcance metodológico das ciências". O reino do heterogêneo é um reino fechado, ou melhor, como disse Habermas, "não se abre, a não ser momentos explosivos de pavor e fascínio, ao desmoronarem as categorias que garantem ao sujeito o relacionamento familiar consigo mesmo e com o mundo".
Daí porque Eduardo Portella não nega o modelo oximórico do heterogêneo, com predomínio da abertura para a liberdade, quando expõe sua grande beleza ao analisar, em Fundamento da Investigação Literária, o Navio Negreiro de Castro Alves. Outro exemplo foi ao mostrar como, em Semiótica e Estética, Emilio Garroni escreve sobre a heterogeneidade da linguagem, inclusive a linguagem cinematográfica. E é o próprio Portella, a quem homenageamos ao completar 70 anos, que melhor escreveu no Brasil sobre o tema. Segundo ele, "o modelo literário, participando de mundos diferentes; do mundo da certeza e do mundo da probabilidade, apresenta-se exatamente como uma instauração modelar específica, cujo traço identificador não é outro senão a ambiguidade", o significado múltiplo ou, mais precisamente, a liberdade.
40 anos
O texto ao lado é um fragmento do ensaio que publiquei no nº 151 da revista Tempo Brasileiro, fundada em 1962, por Eduardo Portella. Foram convidados pelos organizadores da homenagem aos 70 anos do escritor, 30 intelectuais, sendo eu um deles. Procurei abordar principalmente alguns aspectos de sua atividade crítica, por sua grande importância em nossa história cultural.
Geração 65
A Geração 65, que eu preferia definir como um grupo, ao lançá-la simultaneamente em três frentes, no início da década de 60: Suplemento deste DIARIO; revista Estudos Universitários e o Programa de Pós-Graduação em Letras e Lingüística da Universidade Federal de Pernambuco vão lançar, através desta coluna e da Editora Universitária, livro de Arnaldo Tobias, um de seus valores mais representativos.
Estudos críticos
Apesar da saúde vacilante, já concluí a preparação de dois de meus três volumes de crítica. Esses dois livros já estão diagramados. São, ao todo, cerca de 1.100 páginas relativas aos ensaios mais extensos: Camões, Dante, Gil Vicente, Jorge de Lima, Cassiano Ricardo, Abgar Renault, Antero de Quental, Machado de Assis, Thomas Mann, W.B.Yeats, Carlos Pena Filho, Manuel Bandeira, José Gomes Ferreira, Castro Alves e muitos outros. As abordagens são estratégicas, deixando os movimentos táticos para os escritores vivos de minha preferência.
Poesia nova
Entre os poetas novos, destaco o nome de Delmo Montenegro. Breve ele estará lançando um livro, após sua estréia na revista Estudos, em 1999, um livro de poemas cuja apresentação é muito ousada, pelas singularidades de sua visão poética do mundo. Um dos ensaios mais extensos é sobre a grande poesia de Deborah Brennand.