Edição de Domingo, 21 de Setembro de 2003
 
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Holocausto pelas lentes políticas de Costa Gavras

Filme mais recente do diretor grego será exibido hoje na Fundaj

Luciana Veras
Da equipe do DIARIO

Costa-Gavras e política são elementos que, ao contrário dos imiscíveis água e óleo, mesclam-se com facilidade. Em Z e Missing, o grego Costantin aliou um senso técnico a uma carga dramática que, nos enredos, atrelava-se a personagens politizados, por natureza ou imposição do destino. Em Amém (Amen., França/Alemanha/ Romênia/ Estados Unidos, 2002), seu filme mais recente, atração deste domingo do 2º Festival de Cinema Francês, o diretor volta-se para uma tema que já havia, por caminhos diferentes, abordado antes: o Holocausto.

  Em Muito Além de um Crime (Music Box, 1989), Costa-Gavras punha a filha advogada para livrar o pai da acusação de comandar a sangrenta incursão nazista à Hungria; em Amén a tragédia perpetrada pelo Fuhrer é analisada por um ângulo obtuso: é alguém de dentro da engrenagem do III Reich que o diretor toma como protagonista, o engenheiro químico e tenente nazista Kurt Gerstein, vivido com intensidade por Ulrich Tukur.

  Após um prólogo no qual se mostra um suicídio hebreu na sede da ONU,na sempre neutra cidade de Genebra (seqüência que já atesta o direcionamento da trama), o cineasta apresenta Gerstein como inventor de uma fórmula usada para purificar a água bebida pelos soldados germânicos. Estamos a três anos do deflagramento do conflito, porém Hitler já eliminou, num ensaio macabro, os alemães que não atingem seu ideal de saúde e beleza, incluindo uma sobrinha do engenheiro, o que gera a inquietude do oficial que, em hipótese alguma, antevia na ascensão hitleriana a busca pela pureza étnica.

  O conflito de Gerstein e sua procura por respostas sustentam a trama desse thriller que não dá, nos seus 130 minutos, uma nesga de ar, uma janela para que o espectador respire - em especial quando o personagem de Mathieu Kassovitz, o jovem padre Riccardo Fontana, entra em cena para ajudar Gerstein a obter do papa Pio XII o repúdio das práticas de Hitler, Himmler e asseclas. São duas atuações vigorosas e impecáveis, boas o bastante para que o peso do texto e a escolha por uma ambiência claustrofóbicanão desanimem a platéia.

  Se Amén possui momentos claudicantes, afasta-os pela clareza com que Costa-Gavras, mais do que em O Quarto Poder (Mad City, 1997), monta seu tabuleiro maniqueísta. Os inescrupulosos oficiais nazistas, que assistem ao fenecer dos judeus e os empilham em covas, não recebem a pecha de vilões como se espera de qualquer filme sobre o tema (nem suas malvadezas são postas na tela, numa jogada de mestre do diretor). Enquanto Gerstein e Fontana assumem para si uma luta desigual, é da Igreja Católica o manto da omissão e do silêncio ante uma carnificina indesculpável, desdenhada pela secular instituição por medo do comunismo.

PS - Amén pode ser objeto de sua análise, caro(a) leitor(a). Para participar do concurso Crítico Por Um Dia, realizado pela Fundação Joaquim Nabuco e pela Revista de Cinema, basta ver o filme e escrever um texto de 30 a 40 linhas. Informações: cinema@fundaj.gov.br.

Serviço

Amém (Amen., França/Alemanha/ Romênia/ Estados Unidos, 2002). Dir: Costa-Gavras. Ulrich Tukur, Mathieu Kassovitz. 12 anos.
Onde e quando: No Cinema da Fundação, neste domingo, às 20h20.








 

 
 
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