Homenagens marcam 30 anos de morte do intelectual que lançou as bases das políticas alimentares no País
Maria Eduarda Antunes
Da equipe do DIARIO
Josué de Castro foi um homem à frente de seu tempo. Formado em medicina e com atuação marcante na política, também foi escritor, geógrafo e catedrático. Ele pensou a questão das injustiças sociais, buscando soluções para os problemas que ainda permanecem na pauta do dia do País e do mundo. Atualmente, passados 30 anos da morte do intelectual recifense (faleceu em 24 de setembro de 1973), suas obras continuam sendo referenciais, como Geopolítica da Fome, Homens Caranguejos e Geografia da Fome. Para comemorar a data, o Centro Josué de Castro (CJC) organizou uma programação especial na semana que dedica anualmente ao patrono, da próxima sexta-feira até o dia 30.
O evento resgatará a memória do homenageado com o seminário Ciência, Tecnologia e Fome, exposição do acervo pessoal do cientista, apresentações culturais e feira popular. Haverá participação de pessoas como o economista e sócio fundador do CJC, Sérgio Buarque, o ministro de Segurança Alimentar e Combate à Fome, José Graziano, Frei Betto, entre outros.As atividades serão realizadas no auditório Benício Dias da Fundação Joaquim Nabuco (Casa Forte), e no CJC.
No dia da abertura, o pesquisador Manoel Correia de Andrade lançará o livro O Brasil e a Questão Agrária (Editora da UFPE). Na publicação, ele reúne ensaios escritos nos dois últimos anos, analisando as possíveis aberturas para esta área: "Defendo a reforma agrária. Esse foi um dos aspectos postos por Josué de Castro para a erradicação das desigualdades no país", afirma o autor.
Ao longo de sua trajetória, o cientista teve duas indicações para o Prêmio Nobel da Paz, atuou como deputado federal por duas vezes, foi embaixador do Brasil na ONU, presidente do Conselho Executivo da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação). Além disso, recebeu várias homenagens internacionais, fez parte de diversas academias e teve a obra traduzida em 25 idiomas.
MANGUE - O cidadão que conheceu de perto a pobreza do país, sobretudo a do Nordeste, apreendeu o real significado do problema na própria cidade. Ele criou programas para sua erradicação, como o Tracunhaém, divulgado no livro Josué de Castro e o Brasil (Editora Fundação Perseu Abramo). A publicação foi lançada este ano, com artigos de diversos autores, como Michel Zaidan Filho, e os ministros Humberto Costa e José Graziano. É do médico a afirmação: "No mangue, tudo é, foi ou será caranguejo, inclusive o homem e a lama. A fome se revelou espantosamente aos meu olhos nos mangues do Capibaribe, nos bairros miseráveis do Recife".
De acordo com o geógrafo Antônio Alfredo Carvalho, cuja tese de mestrado defendida ano passado resgatou o trabalho do homem que lutou em prol do progresso nacional (Josué de Castro na Perspectiva da Geografia Brasileira: 1934 - 1956), o autor é pouco lembrado, apesar da enorme contribuição dada ao Brasil. "A ditadura de 64 acabou com a obra de Josué. Só a conheci lendo autores franceses. Naquele país, o livro Geografia da Fome é obrigatório no currículo secundário. A partir de 1992 é que os estudos vem se intensificando aqui", constata.
Na opinião de Carvalho, Josué foi um visionário e deixou uma herança fundamental para compreender a atualidade. "Ele foi pioneiro na criação de políticas alimentares. Em 1951, já utilizava a expressão sem-terra. Falava, ainda, na questão do desenvolvimento com equilíbrio ambiental. A interdisciplinaridade estava presente na sua atuação", esclarece.