Em pacote de dois volumes, CDs reúnem 27 canções inéditas e grandes sucessos registrados em vinil
Júlio Cavani
Da equipe do DIARIO
Encontrar gente dizendo que gosta de frevo é fácil. Difícil é ver alguém tomando partido, participando, produzindo e consumindo esse ritmo que simboliza Pernambuco como nenhum outro. O Maestro Nunes é um dos que continuam provando que essa música continua viva e ainda rende frutos, como ele mostra nos CDs Locomotiva do Frevo (Volume 1 e 2), que estão sendo lançados com apoio da Lei de Incentivo à Cultura Municipal. Aos 72 anos, o maestro já gravou mais de 20 discos, mas só agora estréia no formato digital, remasterizando seus antigos sucessos e lançando músicas inéditas.
O lançamento de um disco de frevo com 27 músicas inéditas em pleno século XXI é algo bastante oportuno para calar quem reclama que o ritmo é coisa do passado, alegando que as orquestras tocam sempre as mesmas músicas. O maestro Nunes, que tem formação erudita, não pára de produzir em sua escolinha no Pátio de Santa Cruz, onde trabalha há 30 anos, e espera ganhar as ruas com suas novas músicas, pelo menos no Carnaval. "O frevo perdeu muita gente importante, mas não se calou, porque surgem talentos para substituí-los", acredita o músico.
É verdade que praticamente todos os frevos novos contidos no disco têm uma estrutura bastante semelhante à dos sucessos de antigamente. Mas deve-se levar em conta, por outro lado, que gente como Paulinho da Viola, Zeca Pagodinho e Jamelão continua sendo ouvida e respeitada, apesar de fazer samba do mesmo jeito que seus antepassados. No caso de Nunes, se musicalmente ele parece antigo, nos temas, o maestro se mostra atualizado, gravando músicas que falam de Bin Laden e Bush, do apagão e da poluição do Rio Capibaribe, entre outros assuntos.
Esse dois primeiros discos trazem frevos de rua, mais agitados e irreverentes, e frevos canções, mais saudosos e emocionados, executados com respeito às tradições. Todas as músicas de rua, por exemplo, terminam com um grand finale, em que todos os instrumentos fazem barulho ao mesmo tempo. Da mesma forma, todos os frevos canção, sem exceção, começam com um som de apito.
Ovolume 1, só com frevos de rua, reedita, agora em CD, os carros-chefe dos discos de vinil que ele periodicamente lançava desde 1975. No encarte, Nunes conta as curiosas histórias de cada canção. Além de importantes para a história da música pernambucana, as canções são registros de suas épocas, pois algumas comentam acontecimentos como a comemoração dos 150 anos do Diario de Pernambuco, a morte de Nelson Ferreira e o golpe de 64, lembrado na canção Mosquetão, que comenta a morte de um estudante por motivos políticos. "Um frevo pode ser mais perigoso que uma arma. Uso a música para defender a democracia", comenta o maestro, ainda um marxista convicto.
Nunes concebeu todos os arranjos das músicas novas do volume 2, que traz canções escritas por vários autores. Os frevos são entoados pelos cantores Paulo da Hora, Sílvio Imperatriz, Maria Gabriele, Chico Zoma, Netinha Melo, Helena Duran e José Paulino Martins, cada um com um estilo, acompanhados de uma orquestra de 14 músicos regidos pelo maestro. Tudo foi gravado durante 120 horas nos estúdios Fábrica e Viasom. Além de se basear em temas em voga, as músicas inéditas também homenageiam agremiações carnavalescas, como o Segura o Talo da Turma da Jaqueira e o Acorda Povo de Afogados.
"Lugar pitoresco esse aqui", diz o maestro diante do Pátio de Santa Cruz, hoje decadente, mas onde já autoridades. Em sua escolinha de música na esquina da Gervásio Pires, ele já formou muita gente importante e guarda até hoje centenas de partituras e discos de vinil. Além de dar aulas, ele se sustenta escrevendo arranjos de vários ritmos que conhece bem. "O rock imitou o frevo", garante o mestre, alegando que o ritmo norte-americano se contaminou com a velocidade da música pernambucana.
Serviço
Locomotiva do Frevo - Volumes 1 e 2, do Maestro Nunes
Preço sugerido: R$ 10,00, cada disco