Polícia Federal investiga caso de falsa promessa de casamento
Paulo Goethe
Da equipe do DIARIO
uando embarcou no dia 2 de agosto de 1998 para a Europa,
ela pensava que estava tendo uma chance única de reconstruir sua vida.
Aos 38 anos de idade, iria morar na Alemanha, com um marido italiano
doze anos mais velho. Bastaram 15 dias para que a realidade se revelasse.
A pernambucana - cujo nome, a seu pedido, não será revelado - tinha
sido vendida para se tornar uma escrava sexual. O preço? Vinte mil marcos,
o equivalente hoje a R$ 50 mil. Até o dia 17 de agosto, quando conseguiu
fugir e pedir ajuda à polícia alemã, ela passou por humilhações, contraiu
hepatite e recebeu ameaças de morte se resolvesse descumprir as ordens
do "dono". "Foram 15 dias, mas considero que perdi 15 anos de vida",
afirma. Depois de quatro anos esperando pela iniciativa de uma organização
não-governamental, ela procurou o Programa de Prevenção e Enfrentamento
ao Tráfico de Seres Humanos para abrir um processo contra as pessoas
que a trataram como mercadoria. Os envolvidos estão sendo interrogados
pela Polícia Federal, que investigaa existência de uma quadrilha internacional
especializada em enganar brasileiras com a promessa de vida fácil no
exterior.
Aos 43 anos, a pernambucana recebe a ajuda de uma psicóloga para tentar
superar o que passou. Relembrar constantemente os 15 dias na Alemanha
acabou resultando em um diabetes recém-diagnosticado. Ela espera que
sua história sirva de alerta para as mulheres que embarcam no Aeroporto
Internacional dos Guararapes pensando que encontraram o príncipe encantado.
"Havia voltado ao Recife depois de morar no Rio de Janeiro. Estava na
casa da vizinha quando a filha dela, que morava em Zurique, na Suíça,
telefonou", conta. Casada com um italiano, a filha da vizinha convenceu
a pernambucana a também buscar um marido estrangeiro. O pretendente
seria um homem de 50 anos de idade. Ela iria para a Europa com todas
as despesas pagas, onde ficaria três meses - o tempo de permanência
do visto de turista - para avaliar se o casal teria empatia.
CÁRCERE - No desembarque em Zurique, ela percebeu de imediatoque não
haveria romantismo na sua nova vida. "Ao entrar no carro, uma van, fui
logo sendo apalpada. O italiano ficava dizendo que tinha pago, mas eu
acreditava que ele se referia às despesas da viagem", relata. Ao chegar
no apartamento da brasileira que fez a intermediação, ela foi obrigada
a fazer sexo contra a vontade. No dia seguinte, ao entrar na casa que
seria o seu futuro lar, já na Alemanha, ela percebeu que estava, na
verdade, em um cárcere. "O italiano desligou o telefone e tirou a chave
da porta. Minha vida se resumia a estar disponível para sexo a qualquer
hora e fazer todo o serviço doméstico", diz.
A recusa em aceitar a nova vida fez com que o italiano ameaçasse a
brasileira agenciadora com a devolução da mercadoria e o ressarcimento
do dinheiro investido. Neste novo período na residência em Zurique,
ela fingia dormir para ouvir os planos da brasileira e seu marido italiano
em relação a seu destino. "Eles planejavam me enviar para boates para
que eu me prostituísse e, com o dinheiro, pagar a dívida com o meu comprador",
lembra. Nas poucas saídas de casa, ela era obrigada a sorrir e posar
para fotos que seriam enviadas para a família em Pernambuco, como forma
de mostrar que tudo corria bem. Nesses momentos a atenção era voltada
para decorar nomes de ruas e prédios que poderiam orientar uma possível
fuga.
MÍMICA - A oportunidade aconteceu na Alemanha, quando saiu pela porta
da frente, que não estava trancada. Ela conseguiu chegar a uma estação
ferroviária onde pediu ajuda através de mímica, já que não sabia falar
alemão. Levada para a polícia e com a ajuda de uma tradutora do consulado
brasileiro, fez a denúncia e foi encaminhada para um hospital de apoio
a mulheres estrangeiras. Foi lá que descobriu que estava com hepatite.
No dia seguinte, lhe informaram que o italiano havia sido preso e que
a polícia recuperou os seus documentos. Já no Brasil, soube que o processo
foi arquivado na Alemanha. O italiano foi solto e se casou com uma parente
da mulher que a enganou. Ela teve que suportar a presença dele perto
da sua casa. "Outras pessoas estão sendo enganadas, espero que minha
história sirva de alerta", acredita. Com a ajuda da Interpol, a Polícia
Federal pretende ouvir todos os acusados.
Comentários dos Leitores
"Olha, essa mulher era ciente de tudo isso aí,
não venha me contar que ela seria tão tonta a ponto de
acreditar que encontrou um príncipe encantado com toda essa idade.
Poupe-me. Espero que os órgãos competentes não
desperdicem o valioso dinheiro público e também o valioso
tempo, com essa pessoa.", George Brito, por e-mail
"Esta pode ser uma história muito chocante, mas
não é a única! É preciso inventar esquadras de policiais mulheres, que
possam girar nestes ambientes, deixando-se passar por uma caça, para
individualizar quais são os personagens organizadores desse tipo de
tráfico. É realmente uma vergonha, que as nossas jovens mulheres estejam
expostas a esse tipo de risco, somente por falta de policiamento!!!
Pois, justamente pela carência do policiamento existe essa facilidade.
É preciso divulgar mais estas histórias; é preciso haver um espaço na
televisão, usar estas histórias e abordar uma fatia maior da nossa população
e sensibilizá-los. É preciso dar um basta no abuso desse europeus dentro
do nosso país!!! Pois eles têm o país deles e é lá que eles devem dar
evasão sadomasoquismo, às frustações e complexos deles, em nome da população
pernambucana. Eu venho por meio desta, pedir solução para este fenômeno
que está afetando cada vez mais o nosso estado. E me ofereço "oficialemente"
a ajudar; pois sou pernambucana, falo italiano e polonês perfeitamente,
inglês médio, e tenho certeza que existe um método de eliminar este
fenômeno degradante e vergonhoso. Certa da vossa atenção, agradeço antecipadamente.",
Miranda, por e-mail