Muitas crianças beneficiadas por programas de erradicação do trabalho infantil varam a madrugada como catadores nos lixões
Marcionila Teixeira
Da equipe do DIARIO
A escuridão já é total naquele pedaço de mundo esquecido pela sociedade. Aos poucos, os pequenos catadores sobem as montanhas de lixos dos depósitos da Região Metropolitana do Recife para o início de mais uma batalha pela sobrevivência. Meninos e meninas que se movimentam na imundície como se fossem ratos chegam a varar a madrugada na catação. A noite mascara uma falha grave nos programas do Governo Federal de erradicação do trabalho infantil. Muitos dos meninos que estão no submundo dos lixões freqüentam as salas de aula durante o dia e burlam a fiscalização ao escurecer. É a chance de compensar o atraso da verba de Brasília e levar algo de valor para ajudar no sustento da família.
São três horas da madrugada.Deyvson José dos Santos, 9 anos, já está no lixo. Mora ao lado do depósito de Aguazinha, em Olinda, junto com a avó, também catadora, Maria das Dores dos Santos, 49 anos. Deyvson deveria estar dormindo. Tem aula às 7h, no Caic de Peixinhos. Ele é uma das 750 crianças oficialmente egressas do trabalhoinfantil atendidas pelo Peti no município, o que daria direito a R$ 25,00 por mês para sua família. "Ontem ele foi para a escola, mas não teve aula. Preciso trabalhar para comer. Tem vezes que o dinheiro da bolsa atrasa três meses", reclama a mulher.
O resultado da catação do menino rendeu o almoço e o jantar da família naquele dia. Os restos de comida ferviam na panela. "Tenho que trazer o que comer para dentro de casa, fala o menino que já vive essa realidade desde os quatro anos. A avó de Deyvson diz que nos finais de semana o lixão tem meninos por todos os lados. "Dia de sábado e domingo isso aqui enche de crianças porque elas não estão no projeto", denuncia.
Aguazinha, furo ao cerco
Em Aguazinha, adolescentes trabalham na noite sem ser atrapalhados pelos fiscais da Prefeitura. São 21h e Luciana Aparecida da Mata, 14 anos, corre em direção ao lixo quando o caminhão descarrega.
Fernanda Duarte, da Secretaria de Políticas Sociais da Prefeitura de Olinda, diz que está iniciando uma intensificaçãodo monitoramento à noite. "Fazemos visitas diárias ao local, mas sempre há riscos, principalmente nos sábados e domingos", diz. Na opinião da auditora fiscal do Ministério do Trabalho, Vanessa Patriota, o Morro do Cuscuz é um dos grandes problemas hoje para o enfrentamento do trabalho infantil na área. "As famílias usam a entrada do depósito como acesso principal ao morro, localizado atrás do lixão. Dessa forma, fica mais fácil para as crianças escaparem para as células (montanhas de lixo)", destacou. Ada Patrícia da Silva, 9, está faltando aula do Peti para ficar em casa tomando conta dos irmãos mais novos, ao todo três. "O dinheiro da bolsa não vem e eu preciso sair para catar. Se não chove, à noite levo eles comigo. A maioria dos meninos está no lixo de novo", diz
Na Mirueira, em Paulista, o lixão é conhecido por ter um dos maiores índices de violência do município. Lá não há sequer a proteção de cercas. Já são 19h e um grupo de crianças se mistura aos adultos em cima dos montes de lixo. Débora Alves daSilva, 10, também trabalha, apesar de sua família receber R$ 15,00 referente ao pagamento do bolsa escola federal. A jornada dela é pesada. Quando volta do colégio, por volta de meio-dia, faz a tarefa antes de almoçar. Depois descansa e vai para o lixo onde passa a tarde e um pedaço da noite.
O primo das duas meninas, Manassés de Souza Andrade, 10, estuda no mesmo lugar que elas, o Grupo Escolar Frei Guido, e recebe o benefício do bolsa-escola.
O secretário de Educação do Município, Francisco de Assis, diz que a recomendação feita às famílias é que não se deve deixar o menor que recebe a bolsa continuar no trabalho. "A idéia é que em um horário a criança fique na escola e no outro fique em casa ou estude", reforça. Assis lembra que atualmente o dinheiro da bolsa tem chegado em dia. "Registramos atraso no começo do ano, quando a Caixa Econômica Federal bloqueou 2 mil contas que estavam indevidas".
Mário Pilar, da Secretaria de Ação Social do Município, diz que é difícil manter as crianças na escola quando o dinheiro não vem em dia. "Não há motivo para o dinheiro do Peti chegar atrasado em Paulista. Estamos corretos com a documentação. É difícil manter as crianças nos núcleos porque os pais é que levam os próprios filhos para o lixo", alerta.
O maior depósito de Pernambuco, o aterro controlado da Muribeca, em Jaboatão dos Guararapes, tem uma placa de grandes proporções na frente proibindo o acesso de crianças. Lá as responsabilidades são divididas com a Prefeitura do Recife. Há dois meses, um convênio feito entre a Empresa de Limpeza Urbana do Recife (Emlurb) com a Polícia Militar quase zerou a entrada dos menores. "Lá de noite tem umas quinze crianças. Conheço pelo menos umas quatro que recebem bolsa", diz uma catadora que passa a madrugada no lugar.
Violência não mete medo
A conhecida violência do local não intimida os pequenos catadores. "O último crime registrado aqui aconteceu há cinco meses. Um menor foi assassinado com tiros na frente da administração do aterro quando tentava fugir. Antes dachegada da PM, aconteciam muitos homicídios lá dentro", diz Adauto Fonseca, da coordenação do depósito. À noite, no entanto, a PM enfrenta dificuldades na localização de menores. Quando se aproximam do descarrego de lixo, os menores se escondem nas barracas montadas pelos catadores adultos. Somente no mês de julho foram pegos oito adolescentes no trabalho. Se um menor for apreendido, ele é encaminhado para o Conselho Tutelar ou para a Diretoria de Polícia da Criança e do Adolescente. Se for reincidente, a mãe ou responsável pode até ser preso", explica a assistente social Andréa Melo. O cenário dos lixões mostra que nem todo mundo aposta nisso. Ao contrário. Aposta no risco da vida de catador.