Estudo mostra que 28,58% dos estudantes pesquisados admitem tendência à depressão
Cleide Galdino
Da equipe do DIARIO
Muito antes de enfrentar (de direito) as agruras da
profissão, os estudantes de Medicina são afetados pela inevitável e
danosa companhia do estresse. Já nos primeiros anos de curso é possível
identificar as conseqüências que a ansiedade, o medo do futuro, a angústia
e o desgate das horas de estudo e plantões causam à saúde dos jovens.
Uma pesquisa com 178 alunos do curso de Medicina da Universidade de
Pernambuco (UPE) realizada pelo Centro de Pesquisa em Qualidade de Vida
- ONG que faz estudos sobre o estresse há seis anos - mostra, entre
outras coisas, que 28,58% deles se declararam com tendência à depressão
e 13,48% sofrem ou sofreram de doenças do trato gastrointestinal (como
gastrite) e do aparelho respiratório (faringite), enfermidades relacionados
também a questões psicossomáticas.
O organismo da maioria começa a padecer cedo. "Minhas dores no estômago
tiveram início antes mesmo do vestibular. Depois, descobri que estava
com uma gastrite aguda, desencadeada pelo estresse. Fiz tratamento,
mas o médicome aconselhou a mudar de hábitos e relaxar mais", lembra
o estudante, G.C.B.J.,22 anos, do 4º ano de medicina da UPE. Com aula
pela manhã e à tarde e plantões à noite, ele só consegue se alimentar
bem quando está em casa. G. admite que recorre ao guaraná em pó com
amendoim e castanha para ficar mais tempo acordado nos períodos de prova,
quando precisa intensificar os estudos.
A pesquisa identificou ainda que 103 estudantes, 57,86% dos pesquisados,
se consideram estressados e 31 (17,41%) associam o estresse a esgotamento
emocional. "O percentual de alunos que relatam tendência à depressão
é expressivo. Essa constatação é especialmente preocupante quando levamos
em consideração a faixa etária dos pesquisados (entre 18 e 25 anos)",
observa o presidente do centro e coordenador do Serviço de Medicina
Psicossomática da Faculdade de Ciências Médicas da UPE, professor Dival
Cantarelli.
DESGASTE - Autor do estudo, realizado em parceria com outros cinco alunos
da graduação de Medicina da UPE, o professor admite que ficou surpreso
com o nível de desgaste referido pelos alunos no dia-a-dia. O percentual
de 23% do contingente pesquisado admitiu sofrer alterações no apetite
(ruim, aumentado ou diminuído) e 32,01% na qualidade do sono (ruim,
péssimo e insônia). Quase 22% acham que têm pouco tempo para dormir.
Enquanto isso, 32,58% buscam melhorar a alimentação para diminuir os
efeitos do fadiga, 28,08% procuram a diversão para relaxar e apenas
12,92% fazem algum tipo de execício físico. "Procuro fazer amigos fora
da área médica e sempre reservo finais de semana para sair um pouco",
adianta I.M.G.,23 anos, também estudante do 4º ano de Medicina da UPE,
que sente dificuldade para dormir por causa da tensão nas épocas de
prova.
O estudo do Centro de Pesquisa em Qualidade de Vida levou em consideração
outras questões, como a opinião dos estudantes com relação à insegurança
social, afetividade, sexualidade e relacionamento com a família. Ele
será apresentado na íntegra, junto com outros assuntos relacionados
ao tema, no dia 27 de setembro, no 5º Encontro pela Redução do Estresse,
que acontecerá no Memorial da Medicina, no Derby, das 8h às 12h.
Comentários dos Leitores
"Se este estudo for feito também com os alunos de
engenharia da UFPE, os resultados não seriam muito diferentes.",
Juliana, por e-mail