Atriz ficou tão deprimida quanto a personagem do folhetim global, mas já tratou de espantar a depressão
Irrequieta por natureza, Vera Holtz tinha que se preparar à exaustão para fazer as cenas da fase Santana-no-fundo-do-poço. Chegava ao Projac quietinha e ia para o camarim pensar na vida da professora alcoólatra até a hora de gravar. Agora, a atriz está toda prosa: como a personagem vai se recuperar - e reconquistar Lobato (Roberto Frota) - ela se sente apta a fazer bagunça outra vez. "Só esta semana é que eu fiquei mais alegrinha. Afinal a Santana decidiu recorrer ao Alcoólicos Anônimos. Fui fazer um check-up e voltei para a análise", festeja Vera. "No começo da novela fiquei bem deprimida, com a cabeça a mil, pensando que precisava dar humanidade à personagem, para que ela fosse capaz de ajudar as pessoas", completa.
Santana já está ajudando. Como aconteceu quando Manoel Carlos começou a abordar a violência doméstica e o ciúme obsessivo, muita gente diz a Vera que decidiu procurar tratamento a partir da história de sua personagem. Tais depoimentos eram o estímulo de que a atriz precisava para fazer cenas como aquelas em que Santana deu vexame na casa de César (José Mayer). No dia da gravação, o frio era de rachar, ela estava se recuperando de uma virose e teve que cair oito vezes na piscina.
"Eu saía, me enxugava e, depois que a equipe técnica acertava todos os detalhes, caía na água de novo para dizer mais algumas falas. Não é fácil fazer cenas como esta, ou como a outra em que Santana bebeu perfume. Sempre preciso de muita concentração para entrar na alma dela", pontua.
Na composição da personagem, Vera foi ajudada por um amigo que trabalha no A.A. e pelo contato com um grupo de mulheres alcoólatras que se reúne no Instituto Philippe Pinel, no Rio. "No Pinel elas têm atendimento médico e psicológico. Em geral, as mulheres bebem escondido e se acabam mais rápido do que os homens, por causa do efeito da bebida sobre seus hormônios", conta.
O fato de Mulheres Apaixonadas ser mais uma novela a mostrar um alcoólatra não foi visto por Vera como um fator que dificultaria o seu trabalho. Ela aproveitou para aprender com os colegas: conversou com Renata Sorrah sobre a Heleninha de Vale Tudo, com Otávio Augusto, que foi um poeta bêbado em Fera Ferida, com Glória Perez, criadora do dependente químico vivido por Osmar Prado em O Clone, e com Umberto Magnani, o Argemiro da novela, que fez papel parecido no teatro. Agora, vibra com o final de Santana: "Sua recuperação mostra que qualquer pessoa tem chance de vencer uma compulsão."
Manoel Carlos, que já havia falado de alcoolismo em Por Amor, conta que desta vez quis dar outra abordagem ao tema. "Pensei em criar um personagem alcoólatra, mas que estivesse ligado a um trabalho onde o alcoolismo tivesse conotações ainda mais terríveis. Pensei num médico primeiro. Mas quando tive a confirmação da Vera no papel de uma das professoras, não tive dúvidas em mudar da medicina para o magistério. Ela é uma atriz de raríssima sensibilidade, e uma das minhas preferidas", elogia.