Airto Moreira relembra a carreira, fala da ditadura e dos amigos e mostra o talento no programa de fernando faro
Quando tocou na abertura do 13º Festival de Inverno de Garanhuns, na sexta-feira 11 de julho, para muitos que ocupavam a praça Guadalajara (e não conheciam sua trajetória) ele era apenas um talentoso percussionista, capaz de extrair som de objetos inusitados e comandar uma versão das Bachianas Brasileiras de Heitor Villa-Lobos. Para outros, porém, ele era, e é, o mestre, o rei, o ás do batuque. Reconhecido por produtores e maestros como um dos mais completos percussionistas do planeta, Airto Moreira é o convidado do Ensaio deste domingo, que a Cultura põe no ar a partir das 21 horas.
Dividido em duas partes - a segunda edição vai ao ar no próximo domingo, dia 28, também às 21 horas -, o especial traz uma entrevista inédita com o músico, que, além de descortinar sua vida, interpreta, ao lado de Arismar do Espírito Santo (violão), Lito Robledo (baixo) e Evaldo Soares (piano), várias canções no estilo world music: Misturada (Airto Moreira); La Barca (Roberto Cantoral); Deixa pra Lá (Luiz F. Freire/ Sérgio Augusto); Disparada (Théo de Barros/ Geraldo Vandré) e Primeira Estrela (Airto Moreira).
Moreira nasceu em 1941, em Itaiópolis, pequena cidade do interior de Santa Catarina. Desde criança, estudou música no Paraná, onde aprendeu canto, piano, violino, bandolim e teoria musical. Na conversa com o apresentador Fernando Faro, ele recorda que desde muito cedo animava festas e eventos com seu pandeiro: "Quando eu tinha 5 anos de idade, tocava com um acordeonista. A gente ia tocar em bailes de batizado, casamento, aniversário, nessas casas de colonos. Nesses lugares longes, íamos à cavalo. Ele na frente e eu atrás, com um saquinho de pano que minha mãe fez, onde levava o pandeiro".
Aos treze anos, veio a profissionalização; aos dezesseis, mudou-se para São Paulo, onde passou a tocar em casas noturnas e programas de televisão como percussionista, baterista e cantor. Nos anos de chumbo da ditadura militar, travou amizade com o cantor e compositor Geraldo Vandré e fez um bocado de sucesso com Sambalanço Trio, formadopor ele, César Camargo Mariano (piano) e Humberto Claiber (baixo). O músico conta, ainda, que foi morar nos Estados Unidos por incentivo de sua mulher, a cantora Flora Purim, que era sua namorada na época e já vivia na terra de Tio Sam. "Eu telefonava e ela falava 'vem pra cá, é igual ao Brasil. Tem sol, brasileiros e o pessoal quer te conhecer'. E então eu fui", lembra.
Foi a senha para Airto Moreira gravar com grandes nomes como Miles Davis, Chick Corea, Paul Simon, entre outros artistas ianques, e se tornar referência também lá fora. Hoje, na Europa ou em solo americano, é, talvez, o músico brasileiro mais reverenciado, a unanimidade entre os que vivem da percussão.