LIBERDADE
Soraya Aggege
Agência Globo
A visita que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fará ao seu amigo Fidel Castro em Cuba, no próximo dia 26, mobiliza um grupo de brasileiros interessados em fazer chegar-lhe um apelo dramático. Eles querem que Lula e Frei Betto, assessor do presidente que o acompanhará na viagem, peçam a Fidel que liberte o jornalista e poeta Raúl Rivero, condenado sumariamente a 20 anos de prisão em março por exercer livremente a profissão de jornalista. Diabético e com 58 anos, ele não resistirá à detenção, dizem os amigos.
A família do jornalista promove também uma campanha na Europa e nos Estados Unidos e destaca que o preso é socialista e sempre foi contrário à pressão americana sobre Cuba, mas desde 1991 passou a pedir reformas no regime castrista. Na campanha pelo apoio de Lula, a mulher de Rivero, Blanca Reyes, pediu à Embaixada do Brasil em Cuba uma entrevista com ele para tentar convencê-lo a conversar com Fidel sobre os presos políticos de Cuba. Em abril, Blanca e o filho, Miguel, escreveram uma carta a Lula.
Os amigos montaram um blog na Internet e colhem assinaturas de apoio. Eles querem que o governo brasileiro ofereça asilo político ao jornalista. Segundo a assessoria de Frei Betto, ele tomou conhecimento dos apelos e conhece bem o caso do jornalista cubano, mas não pretende se envolver. Ainda de acordo com a assessoria, Frei Betto não quer dar declarações sobre temas polêmicos e não pretende misturar suas posições pessoais com as do governo.
Rivero, um dos mais conhecidos escritores em Cuba, foi preso em Havana no dia 31 de março. Foi julgado no dia 4 de abril e três dias depois recebeu uma sentença de 20 anos de prisão, sem ter apresentado sua defesa.
De acordo com jornalistas brasileiros e amigos de Rivero, que preferem não ser identificados, ele abandonou o jornalismo oficial denunciando que produzia "uma ficção sobre um país que não existe". Em 1995, fundou a agência de notícias Cuba Press, onde reuniu 40 jornalistas independentes de várias regiões, tornando-se um pioneiro da imprensa dissidente em Cuba. Vários deles foram presos.
Em novembro de 1999, Fidel Castro disse em cadeia nacional de TV que Rivero "nunca poderá viajar para fora do país", impedindo-o de receber prêmios internacionais como os concedidos pela Universidade de Stanford (o Maria Moors Cabot), pela organização Repórteres Sem Fronteiras e pela Associação Interamericana de Imprensa, da qual é vice-presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa.
O governo temia que ele fugisse da Ilha. Além de ser uma referência para os jornalistas do país, livros de Rivero são adotados nas escolas primárias de Cuba. Há cerca de dois anos, ele escreveu um artigo, publicado pelos jornais New York Times e La Nación, onde explicou sua posição de perseguido político:
"A letra da Lei sobre a Proteção da Independência Nacional e Econômica de Cuba permite às autoridades do meu país me condenarem pelo único ato soberano que tive desde que tenho o uso da razão: escrever com liberdade".