(Atualizado no dia 17/09/2003)
 
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Do roçado da cana para os teclados

Iniciativa de inclusão leva mulheres da Mata Sul a conhecerem um PC

Lúcia Guimarães
DA EQUIPE DO DIARIO

O último final de semana nunca mais sairá da cabeça de oito mulheres da Zona da Mata Sul de Pernambuco.Elas tiveram contato com o computador, até então algo distante das suas realidades. São mulheres vindas da roça, do corte da cana, de engenhos. São lideranças dos centros de mulheres de Palmares, Água Preta, Joaquim Nabuco e Catende, além de algumas ativistas da região.

  O grupo em questão faz parte do projeto de pesquisa e intervenção Conexão.G, que tem como objetivo promover a inclusão digital das mulheres organizadas daquela região, com o enfoque nos Direitos Reprodutivos e Sexuais. A iniciativa conta com o apoio da organização não-governamental feminista SOS Corpo e da Fundação Carlos Chagas através da bolsa de estudo GRAL (Gênero, Reprodução, Ação e Liderança), financiada pela Fundação MacArthur.

  O processo de capacitação, que começou em junho e vai até novembro, só agora chegou às aulas práticas. A iniciativa foi dividida em dois módulos: Conteúdos de Gênero, Tecnologias de Informação e Comunicação e Aulas Técnicas. As atividades incluem ainda discussão política sobre a relação Direitos Reprodutivos e Sexuais e as Novas Tecnologias de Informação e Comunicação, capacitação para operação de softwares, articulação em redes eletrônicas e sociais.

  De acordo com a coordenadora do projeto, a jornalista Micheline Américo, a estratégia é utilizar os conteúdos feministas aliados às novas tecnologias para discutir, mobilizar e articular redes em torno da questão, fortalecendo e potencializando ainda mais as ações políticas das organizações de mulheres. "As questões específicas e as prioridades das mulheres da Mata Sul não podem ficar escondidas atrás das palmas da cana-de-açúcar. É preciso articular-se com outras organizações para fortalecer o movimento a partir da esfera local".

INICIAÇÃO - "Tinha medo desse contato, porque achava complicado, muito além do que eu podia aprender, mas depois dessa primeira aula, estou me sentindo mais capaz", conta a coordenadora do Centro das Mulheres de Catende, LindinalvaPanta, 48 anos. Para a coordenadora da Associação das Mulheres de Água Preta, Cícera Maria da Silva, 42 anos, esse contato com a informática é tão importante quanto saber ler e escreber. "Ficar fora disso é mesmo que não saber o bê-a-bá", acrescenta ela.

  As mulheres contempladas pela iniciativa têm o compromisso de se tornarem multiplicadoras. Para ajudar a socializar e fomentar o debate em torno dessa questão, os conteúdos apresentados durante o curso serão difundidos também para todos os 21 municípios da Zona da Mata Sul, através de campanhas, entrevistas, debates, notícias e informações que serão veiculadas em um programa de rádio dirigido à população feminina. O programa, o Rádio Mulher, é realizado pela organização não-governamental Centro das Mulheres do Cabo em parceria com o movimento de mulheres da região e veiculado pela rádio Quilombo FM.

  "O projeto foi motivado pela realidade local e reforçado pela pesquisa da Fundação Perseu Abramo (intitulada A mulher brasileira nos espaços públicos e privado)", conta Micheline. O estudo revelou que cerca de 73% da população feminina do Brasil nunca trabalhou com computador e apenas 27% declararam usar a nova tecnologia às vezes ou freqüentemente. Mais: para 86% dessas mulheres, não houve ainda possibilidade de contato com a internet e pior, mais de 30% ainda não sabem, sequer, o que é internet.

  Segundo Micheline, o dia-a-dia mostra que a realidade das mulheres da Mata Sul é bem pior. Lá, por exemplo, não há em nenhum centro de mulheres computador e conexão à web. Por isso, ela avisa: "a capacitação é o primeiro passo. Queremos ampliar o processo, formando parcerias".

lguimaraes@dpnet.com.br


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