Pragmáticos e Românticos
No meio da semana, ao assistir a vários jogos da Copa dos Campeões da Europa, aumentaram as minhas esperanças de que o Brasil vai formar uma excepcional seleção. Ronaldo, Roberto Carlos e Dida brilharam intensamente. Cafu, Emerson, Kaká e Gilberto Silva atuaram bem. Juninho Pernambucano continua fazendo sucesso na França. Vou cobrar esse grande time do Parreira durante as eliminatórias. O que não se pode é mudar os conceitos sobre os jogadores e a equipe a cada partida.
Gostaria de ver a Seleção com mais eficiência e com o encanto e toque de bola do Real Madrid. Talvez seja difícil porque não temos um Zidane. Ele faz com mais brilho as funções do Zé Roberto e do meia de ligação (seja quem for). Roberto Carlos atua ainda melhor no Real porque faz dupla com o Zidane, pela esquerda.
Beckham está atuando de volante e não de meia direita, como fazia no Manchester United. De vez em quando, desloca-se para a direita e executa os seus primorosos cruzamentos. Nisso e nas bolas paradas, é incomparável. Na posiçãode volante, ele tem dado também excepcionais passes longos ao Ronaldo.
Contra o Equador, seriam importantes esses lançamentos longos do próprio campo brasileiro para o Ronaldo nas costas dos zagueiros, já que Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo não conseguiam tocar a bola e se aproximar do Ronaldo. Porém, Gilberto Silva, Emerson e Zé Roberto não sabem fazer isso.
As últimas exibições do Real Madrid desencadearam novamente a discussão entre o futebol arte, de espetáculo e o de resultados. Essa polêmica não deveria existir. Os grandes times que encantaram, sempre jogaram para ganhar, dentro do estilo de cada um. Ninguém atua somente para dar show. Se fizerem isso, perdem.
Nessa discussão, há de um lado os românticos, que enxergam o futebol como um espetáculo plástico e lúdico. Se ganhar, melhor ainda. Para eles, o Real Madrid joga tão bonito que nem precisaria vencer. Gostaria de ver também o futebol somente com esse olhar. Seria mais prazeroso. Mas, como fui um atleta que queria ganhar todos os jogos e agorasou um cronista metido a entender da técnica e da tática, não consigo separar o encantamento da eficiência individual e coletiva. Porém, o que me fascina é o brilho dos craques.
No outro extremo, estão os pragmáticos, que se vangloriam de serem lógicos e objetivos. Acham que time bom é somente o que vence e é campeão. Dizer que a seleção húngara de 54, a holandesa de 74, a brasileira de 82 e outras grandes equipes não foram excepcionais porque perderam, é uma total irracionalidade. Num campeonato curto, como jogos mata-mata como uma Copa do Mundo, nem sempre vence o melhor. Num jogo infeliz, perde-se tudo. Isso não acontece num campeonato por pontos corridos. Quando Nelson Rodrigues escreveu sobre os "idiotas da objetividade", se referia a essas pessoas de pouca sensibilidade e visão estreita do futebol.
Isso é um fato. Outro é a análise equivocada que às vezes fazemos de alguns times. Prefiro mil vezes assistir aos jogos do Real Madrid, mas não será surpresa se o time for novamente eliminado da Copa dos Campeões. A defesa, que já era frágil, ficou mais ainda com o Beckham atuando de volante.
Futebol não é só ataque. Outros times, que encantam menos e não têm tantos supercraques, são mais equilibrados e eficientes. O Milan tem excepcionais defensores (Nesta e Maldini são os dois melhores zagueiros do Mundo), um magistral goleiro (Dida), dois excelentes atacantes (Inzaghi e Schevchenko) e dois meias talentosos (Kaká, Seedorf, Rivaldo, Rui Costa disputam duas vagas).
Nesse momento, não dá para dizer se a exuberância do ataque do Real Madrid será suficiente para suplantar as deficiências de sua defesa. Saberemos quando o time enfrentar as melhores equipes da Europa. Portanto, é preciso separar os dois conceitos: o do time espetacular e eficiente que perdeu o título por causa de um jogo atípico e o da equipe que encanta pelos seus craques, mas que tem importantes deficiências. É difícil separar as duas coisas. Não é uma coisa ou outra. Entre elas, há muitas possibilidades. A vida é mais analógica do que digital. Passa mais nas entrelinhas, na subjetividade do que na objetividade.
Os pragmáticos gostam de dizer que a história é contada pelos vencedores. Nem sempre. Muitas equipes que perderam são hoje muito mais exaltadas do que outras que ganharam. A história é também contada pelas brilhantes equipes perdedoras.
Estarei de férias nas próximas duas semanas. A coluna voltará no dia 12 de outubro. Até lá.