RODRIGO BASTOS
Fred Figueiroa
Da equipe do DIARIO
No final dos anos 80, o jovem atirador Rodrigo Bastos era uma promessa. Medalhista pan-americanano (87), título de Copa do Mundo (88), pódio em Mundial (89) e uma honrosa 7ª colocação nos jogos de Seul (88). Mas a falta de condições financeiras para investir no esporte o fez abandonar o tiro durante toda a década de 90. Foi um hiato de dez anos na sua carreira. "Em 2001 não agüentei e resolvi voltar a atirar visando o Pan-americano de Santo Domingo.", confessa Rodrigo que, literalmente, pagou caro para retomar seu sonho. "Gastei cerca de R$ 10 mil mensais nos dois anos de preparação, incluindo as viagens", calcula. Em cada sessão de treino, ele dispara cerca de 250 tiros. São mais de 1000 cartuchos de bala por semana.
Mas parece que valeu a pena. Ele foi o primeiro atleta do País a conquistar uma medalha no Pan-americano de Santo Domingo - prata na prova de fossa olímpica. Além da medalha, ele conseguiu a vaga para a Olimpíada de Atenas, e fez mais: nas provas eliminatórias do Pan, acertou 124 dos 125 pratos possíveis, quebrou os recordes brasileiro, sul-americanos e pan-americano e ainda igualou o recorde olímpico.
Alçado a celebridade do esporte nacional, hoje ele é o principal atirador brasileiro. De acordo com um estudo estatístico da Folha de São Paulo, de todos os brasileiros medalhistas no último Pan, em provas individuais, Rodrigo seria o único que, com o mesmo desempenho, ganharia uma medalha olímpica. "Aumentou a responsabilidade", assume o atirador, que está no Recife disputando o Campeonato Pernambucano e Norte/Nordeste de tiro ao prato
O tranqüilo Rodrigo revela os detalhes da sua adaptação à realidade pós-Pan. "Mudou muita coisa na minha vida", atesta. Mudanças que vão bem além do reconhecimento popular, dos tapinhas nas costas ou da projeção na mídia, e que influem diretamente na sua carreira. Depois de quase 20 anos de tiro só agora ele conseguiu patrocínios (Comitê Olímpico Brasileiro e Companhia Brasileira de Cartuchos) que vão lhe permitir dedicaçãoexclusiva ao esporte, deixando de lado, por enquanto, a carreira de dentista, que acabou bancando, durante muito tempo, a paixão pelo esporte. "Finalmente poderei fazer um trabalho escalonado, com dedicação diária não só com treinos práticos, como também com toda uma preparação psicológica e física", explica o entusiasmado atirador.
FUTURO - O Recife está sendo o ponto de partida para o projeto olímpico de Rodrigo Bastos. Hoje, no stand de tiro do Caxangá Golfe e Country Club, ele deve conquistar seu primeiro título depois da medalha do Pan. "Essa cidade é um exemplo da possibilidade real de renovação e popularização do tiro no Brasil. Aqui surgiram garotas que derrubaram vários preconceitos, como os de que é um esporte para homens, para velhos ou o mais grave: que faz apologia à violência", expõe Rodrigo, referindo-se à Cecília Frej, Nathália e Mariana Vasconcelos. "São atiradoras com um potencial incrível e que, em pouco tempo, já mostraram seu valor, mas que precisam ter estrutura para continuarem evoluindo", completou.
O futuro do tiro também passará pela cidade em que Rodrigo vive: Guarapuava, no Paraná, que ganhará um centro de treinamento orçado em mais de R$100 mil e que será construído pelo COB e pela CBC.