Artesã ana das carrancas, de 80 anos, é orgulho para cultura da cidade
Petrolina guarda, em sua cultura, muitos nomes para não serem esquecidos. Mas é praticamente impossível não lembrar, logo de primeira, de uma de suas representantes mais ilustres: a artesã Ana Leopoldina dos Santos, 80 anos, mais conhecida como Ana das Carrancas.
Natural de Santa Filomena, distrito de Ouricuri (PE), no sertão do Araripe, Ana aprendeu de muito cedo - aos sete anos de idade - o ofício do artesanato, vendo sua mãe Maria Leopoldina dos Santos trabalhar. Dedicando parte de sua vida à confecção de objetos de barro, sobretudo as carrancas, ela ganhou dos petrolinenses o carinhoso apelido de "Dama do Barro".
Mas se hoje ela possui o reconhecimento de uma grande artista, tendo suas obras divulgadas até mesmo fora do país, no início as coisas eram bem diferentes. Em 1954, quando chegou a Petrolina ao lado do segundo marido, José Vicente Barros (cego de nascença), ela passou a comercializar nas feiras livres suas peças de barro.
Além de louças e jarros, Ana confeccionava figuras folclóricas que ganhavam o desdém da maioria da maioria das pessoas. A arte de esculpir as famosas carrancas veio principalmente da necessidade, pois não suportava ver o marido José Vicente pedir esmola nas ruas para sustentar a família.
Foi então, no começo da década de 60, que a vida de Ana deu uma grande guinada. O desprezo das pessoas pelas suas obras foi dando lugar à curiosidade, o que lhe serviu de estímulo. "Fui me aperfeiçoando nesse trabalho. Quanto mais fazia, mais vontade tinha", lembra a artesã.
Homenagem - O detalhe é que as carrancas feitas por Ana levam os olhos vazados, como forma de homenagear o marido cego, seu companheiro fiel no trabalho. "É ele quem amassa o barro", explica. O dinheiro que passou a ganhar vendendo suas obras não foi muito, mas o suficiente para tirar José Vicente da mendicância e alcançar duas graças, como costuma dizer.
A primeira foi ver uma das filhas professora formada. A outra foi a construção do Centro Ana das Carrancas pela Prefeitura Municipal, em 2000, um sonho antigo da artesã. "Sempre quis ter um local onde eu e meu marido pudéssemos trabalhar", lembra Ana. O centro, localizado no bairro Cohab Massangano, destina-se hoje também a levar aos mais carentes várias atividades socioeducativas.
O reconhecimento definitivo do legado cultural de Ana das Carrancas veio também em 2000, com o título de Cidadã Petrolinense, concedido pela Câmara de Vereadores. "Por onde andei sinto-me orgulhosa em dizer para todos que sou de Petrolina", completa.