Recife precisa atrair o turista
Apesar do rico acervo histórico e da beleza dos seus monumentos, igrejas, rios e pontes, o Recife não tem sido capaz de atrair a atenção dos visitantes. A constatação é do presidente do Sindicato dos Hotéis, Bares, Restaurantes e Similares, Júlio Crucho. De acordo como ele, a falta de atrativos estaria limitando o tempo de permanência dos visitantes na cidade e contribuindo para o fechamento de diversos estabelecimentos comerciais voltados ao turismo receptivo. O proprietário do restaurante D. Pedro - um dos mais tradicionais da cidade - alega que a falta de segurança e de limpeza pública associada às poucas opções de lazer e entretenimento vêm transformando o Centro do Recife numa região fantasma. O empresário afirma que o turismo estadual se restringe, hoje, aos resorts do Litoral Sul e que se faz necessário incrementar a vida noturna da Região Metropolitana do Recife para garantir o aumento no fluxo de visitantes. Ele argumenta que não adianta apenas investir na divulgação do destino Pernambuco. Criar mecanismo que prendam o turista na cidade é, segundo ele, o único caminho capaz de resgatar o interesse pelo centro e, conseqüentemente, garantir a sobrevivência dos bares e restaurantes que ainda resistem na área, apesar das dificuldades.
DIARIO DE PERNAMBUCO - Como o senhor analisa o desenvolvimento do turismo pernambucano ao longo dos últimos cinco anos?
Júlio Crucho - O Estado está parado. Tirando os grandes resorts do Litoral Sul, que mantêm um índice médio de ocupação anual em torno de 70%, o movimento em outros pólos turísticos do Estado caiu drasticamente. O Centro do Recife está vazio. A ocupação hoteleira está abaixo dos 30% na Capital. O que existe é marketing governamental em torno das ações de promoção do turismo local. Na prática, o que se percebe é um esvaziamento cada vez maior dos hotéis, bares e restaurantes da Região Metropolitana.
DP - O que pode ser feito para reverter esse quadro e trazer de volta o turista para o Recife?
Crucho - Existem dois aspectos a serem considerados. É preciso tornar o produto turístico mais acessível de forma a atingir uma parcela maior da população. Reduzir a tributação sobre o setor seria um caminho. A redução dos impostos tornaria as passagens aéreas, a hospedagem e a alimentação mais baratas. Também é necessário criar novos atrativos capazes de prender o turista na cidade.
DP - O incremento de vôos charters seria um caminho para melhorar os baixos índices de ocupação da rede hoteleira?
Crucho - Certamente o aumento no número de vôos charters ajudaria um pouco. No entanto, as experiências passadas demonstram que ao desembarcarem no Aeroporto Internacional dos Guararapes os turistas tomam outros destinos. Vão para Porto de Galinhas, Natal, Fortaleza e Maceió. Quando muito, vêm ao Recife em city tours relâmpagos. Pouco é gasto na cidade.
DP - Apesar das dificuldades, quais são as expectativas do setor para a próxima alta estação?
Crucho - As expectativas são sempre boas. Com a aproximação do final do ano e do Verão o movimento melhora. Os hotéis aumentam suas taxas de ocupação e os bares e restaurantes se beneficiam do maior fluxo de turistas. As grandes redes hoteleiras, com sistema de reserva internacional, alcançam até 90% de ocupação. Porém, essa melhoria não é eqüitativa. Os estabelecimentos menores não são tão beneficiados pelo aumento no número de visitantes. Os restaurantes e bares do Centro não recebem um número significativo de turistas, pois poucos se arriscam a conhecer a área. A falta de segurança e de limpeza afasta o visitante.
DP - O que falta ao Recife para assegurar uma permanência maior do turista?
Crucho - Segurança é fundamental. Além disso, é preciso manter a cidade limpa e criar atrativos que prendam o visitante. O Centro do Recife se torna deserto à noite. Não há opções de entretenimento. Faltam teatros, cinemas e casas de espetáculos. Até mesmo os bares e restaurantes da rua do Bom Jesus, no Bairro do Recife, estão passando por dificuldades. A falta de estacionamento é outro problema crônico na cidade. Tudo isso afasta ainda mais o turistado Centro.
DP - O senhor se refere ao Centro do Recife como uma cidade fantasma à noite. O que é necessário fazer para incrementar a vida noturna na área.
Crucho - É preciso atrair as pessoas e isso só se consegue dando opções de lazer e entretenimento. Os monumentos históricos estão quase sempre fechados à visitação pública. As belezas e o potencial do rio Capibaribe são mal aproveitados. À noite, a falta de segurança é absoluta. Uma prova desse abandono é o fechamento de praticamente todos os hotéis da área. Nos últimos anos encerraram suas atividades o Grande Hotel, o Hotel Guararapes, o Hotel Sete de Setembro e o Hotel Recife. Perdas irreparáveis para o turismo do Estado.
DP - As campanhas institucionais de promoção do produto turístico pernambucano têm contribuído para melhorar o movimento dos bares e restaurantes?
Crucho - Apenas em algumas áreas específicas. Quando os turistas chegam ao aeroporto já têm destino certo. Na maioria das vezes, os hotéis e resorts do Litoral Sul. É importante que se realize um trabalho mais efetivo junto aos agentes e operadores de viagem, de forma que eles possam dar aos seus clientes novas opções. Recife e Olinda são belíssimas, mas estão sendo esquecidas. A Ilha de Itamaracá, que por muitos anos foi o principal produto turístico do Litoral pernambucano, está abandonada.
DP - Está havendo um incremento significativo do turismo no Interior do Estado. Isso não é positivo para o setor?
Crucho - Claro. Alguns pólos como Gravatá têm se consolidado, assim como tem crescido o interesse pelo turismo ecológico. No entanto, os benefícios dessa expansão se restringe a áreas específicas. É fundamental que a atividade cresça como um todo. O ideal é que todas esses pólos se beneficiem do turismo. O que não se pode é deixar o turismo na Região Metropolitana no abandono simplesmente porque estão surgindo novos atrativos no Litoral e no Interior.