Elevação nos preços dos alimentos faz consumidor diminuir quantidade de arroz e feijão de feira
Jaqueline Andrade
Da Equipe do DIARIO
Boleira de mão cheia, a dona de casa Risete Cruz Lima fazia uma receita diferente a cada final de semana. Agora, limitou a iguaria a uma vez por mês, ou em ocasiões especiais. Ele justifica que o preço do açúcar, trigo, margarina e leite subiram muito este ano. Como sua renda não aumentou na mesma proporção - ela é costureira autônoma - o jeito foi cortar a quantidade de produtos tidos como básicos na lista de compras. Assim como dona Risete, outros milhares de brasileiros passaram a fazer a mesma coisa. Depois de deixarem de levar para casa os produtos classificados como supérfluos, de substituir marcas líderes pelas inferiores, a ordem agora é reduzir a quantidade do feijão e do arroz.
Uma pesquisa feita entre agosto/setembro deste ano pela Associação Brasileira de Supermercados (Abras) aponta para esse novo comportamento do consumidor. O estudo envolveu mais de 100 empresas que representam mais de 50% das vendas totais do setor. Foram pesquisadas 25 categorias, dasquais 17 registraram redução no volume vendido, na comparação do primeiro semestre deste ano com igual período do ano passado. Entre as maiores quedas observadas nada de guloseimas, bebidas ou produtos importados. Elas foram contabilizadas em alimentos mais populares, que compõem a cesta básica. As quedas mais acentuadas aconteceram no volume comercializado do óleo (-7,9%), do açúcar (-5,1%), do vinagre (-5%) e do arroz (-4%). Nesse mesmo período, o setor supermercadista amargou queda de 1,1% nas vendas.
Segundo a economista responsável pela pesquisa, Fátima Merlin, a perda do poder aquisitivo que vem se agravando nos últimos três anos levou os brasileiros no primeiro momento a cortar os produtos supérfluos. Depois, influenciou na substituição de marcas. Agora, não há mais o que cortar nos extras e o jeito é partir para o básico. "Como a renda não vem sendo recomposta, as famílias estão deixando de levar o produto numa situação mais crítica. Em outra hipótese, passaram a reduzir a quantidade dos itens. Issovem acontecendo em todo o País", ressaltou.
Na verdade, o brasileiro está sendo forçado a mudar seus hábitos de consumo. De janeiro a julho deste ano, por exemplo, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do IBGE, registrou uma variação positiva de 6,85%. As tarifas públicas e preços administrados vêm numa escalada de aumentos. De acordo com o IBGE, de agosto de 1998 a julho deste ano, o gás de cozinha subiu 269,2%, a energia elétrica 123,8%, transporte público 92,6% e telefonia fixa 70,9%.
"O consumidor brasileiro está passando por uma reformulação em seu orçamento familiar, que não sofreu reposição nos últimos anos. A redução de consumo de produtos básicos nada mais é do que uma estratégia de sobrevivência. De uma certa forma até benéfica porque mostra que podemos passar com menos dentro de casa", ressaltou o economista Josué Mussalém.
O presidente da Associação Pernambucana de Supermercados (Apes), Geraldo José da Silva, ressaltou que além dos aumentos de preços registrados este ano, da rendado trabalhador em queda e do crescimento do desemprego, há ainda o peso da telefonia no orçamento de quem ganha até R$ 1 mil. "Estamos concluindo uma pesquisa que indica que o comprometimento da renda com serviços telefônicos fica entre 8% e 10%. Como a renda não aumentou, a população teve de tirar da comida para bancar esse custo adicional", explicou.