BRASÍLIA - Índices de pesquisas, aliados a narrativas de especialistas mostram que o acesso universal à saúde nem sempre é colocado em prática. No Brasil, proporcionalmente, a população afro-descendente apresenta menor registro de atendimento em serviços públicos do que grupos brancos. No tratamento ambulatorial, a proporção de pessoas atendidas entre afro-descendentes é de 11,35. Na população branca, a proporção é 13,86. O mesmo fenômeno se repete nas internações. A proporção entre a população negra atendida é de 6,73. Índice inferior que o apresentado pela população branca, 7,12.
"É certo que parte da população negra mora em regiões onde há menor oferta de serviços públicos. Mesmo assim, é um número que temos de nos preocupar", avalia a historiadora Wania Santana, autora de estudo Assimetrias Raciais no Brasil, apresentado ontem durante a Conferência Nacional de Medicamentos e Assistência Farmacêutica, realizado em Brasília.
"Não há dúvidas de que a política de saúde desconsidera peculiaridades dos afro-descendentes. Temos de ter políticas universais, mas que levem em conta as necessidades específicas de cada grupo", defende a médica Maria de Fátima Oliveira Ferreira, da Rede Nacional Feminista de Saúde, Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos. A negligência para a população negra, completa, pode ser constatada de várias formas. "Temos algumas doenças que ocorrem de forma mais severa entre negros, como a hipertensão. No entanto, até hoje, embora o problema tenha grande incidência, a oferta de medicamentos é insuficiente", diz. Situação semelhante ocorre com diabete.
Uma das idéias para tentar reparar as desigualdades no acesso é a alteração da lista de medicamentos essenciais. "É preciso reavaliar a lista e incluir itens indipensáveis para a população negra", afirma Clair Castilho, coordenadora da comissão que organiza a conferência.