Edição de Domingo, 21 de Setembro de 2003
 

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Igrejas evangélicas na luta pela terra

Nova atitude dos pastores tem atraído fiéis

BRASÍLIA - Por dentro da disputa pela terra entre trabalhadores rurais e fazendeiros, existe uma guerra santa. De uns tempos para cá, igrejas evangélicas, como a Luterana e a Assembléia de Deus, estão intensificando a participação no processo de reforma agrária. Pastores protestantes passaram a apoiar as ações dos sem-terra e, com isso, conseguiram aumentar o rebanho de fiéis. Antes avessas a essa questão, as igrejas evangélicas passaram a se posicionar politicamente contra o latifúndio improdutivo.

  Algumas delas cobram ações do Governo, fazem cadastro de sem-terra, e há pastores incentivando invasões. A igreja evangélica que mais chama a atenção quando se fala em política fundiária é a Assembléia de Deus. Tida como conservadora até meados dos anos 90, concentrava sua atuação na evangelização de fiéis. A mudança nos últimos anos foi intensa e, atualmente, em quase todos os assentamentos do MST e da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) há um templo da Assembléia de Deus. Para nãoficarem perdidos no tempo, os pastores da Assembléia de Deus passaram a montar barracas em acampamentos para apoiar quem ainda não recebeu um lote do Governo.

  No Acampamento Pipiripau, distante 26 quilômetros de Brasília, os pastores improvisaram um templo de lona preta, no mesmo estilo das habitações dos sem-terra. "Percebemos que nossos seguidores precisam de ajuda nos acampamentos. Poucas pessoas têm idéia do que é viver em barracas de plásticos no meio do nada. A gente leva a palavra de Deus e ainda cobra ações do Governo", explica o pastor Antônio Luz, do Pipiripau. No acampamento onde vivem 90 famílias, Luz prega "justiça social em nome de Jesus".

  Na região há oito anos, o pastor deixou de ser apenas um orientador religioso para assumir uma liderança política e social. Em cultos realizados a cada dois dias, o pastor sempre recomenda os fiéis a se cadastrarem em movimentos sociais como forma de garantir um lote. Ele chega ao cuidado de listar os documentos necessários para que os acampados recebamterra e financiamento do Governo.

  A trabalhadora rural Mariana Rocha dos Santos, 49 anos, acorda todos os dias às 5h para trabalhar na roça. Há dois anos, ela conseguiu um lote do Governo e desde então não pára de agradecer a Deus. Evangélica da Assembléia de Deus, ela conta que foi graças ao empenho dos pastores que sua família foi contemplada. "Fiquei na lista de espera do Incra por mais de cinco anos. Depois que entrei na Igreja, tudo ficou mais fácil", conta. Moradora da Cidade Ocidental, ela está assentada na Fazenda Cunha. Desde que passou a tomar conta da pequena Igreja construída no assentamento, ela tentar convencer o filho Cirineu, 10 anos, a estudar para ser pastor.

  O colono Rosalvo Alves dos Santos, 62 anos, da Igreja Pentecostal Brasileira Independente, sabe perfeitamente o que é viver em barracas de lonas. Há dez anos ele atua em acampamentos de sem-terra e há dois foi promovido ao posto de pastor. Ele é responsável por uma pequena igreja no Assentamento Piratininga, no interior de Goiás.A cada dois dias ele faz um culto para cerca de 30 fiéis. Prega que a concessão da terra é uma bênção do Senhor.


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