Edição de Domingo, 21 de Setembro de 2003
 

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Os camuflados

Os subsídios que os países ricos dão à sua agricultura e que eles não querem nem discutir, como se viu na última reunião da OMC, pelo menos são sinceros. É pelos subsídios disfarçados que se dão enquanto pregam o livre comércio e a competição capitalista para todo o mundo que países como os Estados Unidos merecem o título de bolero: "Hipócrita".

  Como é que se disfarça subsídio? Uma entidade sutilmente controlada pelo Tesouro americano chamada FMI existe, antes de mais nada, para garantir que os devedores paguem os credores mesmo que isto nos mate. Sua missão declarada é socorrer países emergentes em emergências e como a causa da emergência nos emergentes é quase sempre a dívida externa, que o FMI obriga a pagar de qualquer jeito, o socorro é um subsídio indireto ao capital especulativo.

  Quando o conhecido esquerdista Dwight Eisenhower se despediu do governo dos Estados Unidos alertando a nação para os perigos de um complexo industrial-militar hipertrofiado, estava apenas batizando uma forma de intervenção estatal na economia que lorde Keynes nunca sonhou. No tempo de Eisenhower a saúde da economia já era em grande parte dependente de contratos militares. O velho general - ou o autor do seu discurso - previu que o vício só aumentaria.

  O dirigismo que não ousa dizer seu nome tem como pretexto a segurança nacional e o fato de que a indústria bélica é a única que precisa continuar americana, por mais que os japoneses provem que fariam melhor, e como condição um estado de guerra mais ou menos permanente. Há anos o Pentágono mantém vivas e prósperas algumas das maiores empresas do país com o seu keynesianismo camuflado.

  Outra forma, mais complicada, de subsidiar sem confessar é, por exemplo, inventar uma guerra contra um país, arrasá-lo e depois gastar alguns bilhões para reconstruí-lo, já estando acertado que parte do dinheiro irá para empresas amigas contratadas para isto sem licitação, como, no caso do Iraque, a Halliburton ligada ao vice-presidente do Bush, Cheney, ou a Bechtel, histórica freguesa de governos americanos agradecidos pelas suas contribuições eleitorais.

  Mais complicado e disfarçado ainda, e também muito eficiente, é desregular um setor como o da energia elétrica e dar a monopólios privados um poder irresistível de chantagear o público e o próprio governo, exigindo subsídio, já que controlam um serviço vital e não podem quebrar. Como aconteceu recentemente em pelo menos dois estados americanos, a Califórnia e o Brasil.

Luis Fernando Verissimo








 

 
 
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