A cesta recifense
A cesta básica não é nenhum tótem que se deva adorar acima da conjuntura econômica. Ela deverá ser vista como um dos pulsos através dos quais se pode medir o bem-estar relativo que a economia dispensa, num dado momento, à população carecedora de mais e melhores avanços sociais. Ela é importante, sem dúvida, sobretudo para aqueles que vivem na fronteira da sobrevivência, onde a alimentação representa a maior parte dos ganhos parcos da parte mais empobrecida da população.
Tudo quanto dissemos até agora não representa novidade nenhuma, mas é certamente uma feliz novidade saber que a cesta básica do Recife foi aquela que em agosto último experimentou a maior baixa de preços de um rol de outras catorze Capitais de Estado. Em agosto, a cesta recifense declinou 9,3%, o melhor índice de um período propício de quatro meses seguidos, durante os quais as cotações dos alimentos em feiras e supermercados - sobretudo nas feiras livres - vêm caindo pouco a pouco.
É pois notícia a merecer festejos que ultrapassem o simples registro. A atual fase deflacionária por que atualmente passa a economia nacional chega à munição de boca da população, puxada pela queda do preço do tomate, do feijão, da banana, da manteiga e do açúcar principalmente. Dos doze produtos da cesta, apenas dois, o café e o óleo de soja não baixaram no período assinalado e nem durante o mês da pesquisa, agosto. O leite não apresentou variação.
O mês de setembro deverá repetir apuração parecida com a de agosto, mas com menor impulso de baixa.
Pela influência que os impostos ainda têm, no país, sobre o preço dos alimentos, as melhores apostas estão sendo feitas nas diretrizes fiscais e tributárias que se esperam dos trabalhos que ora se desenrolam no Congresso Nacional. Tudo indica que os alimentos integrantes da cesta básica que venha a ser redefinida pela Administração Federal terão os respectivos impostos incidentes bastante diminuídos. O Brasil oferece este inexplicável paradoxo até agora, e é o de taxar até exageradamente alimentos fundamentais para osustento de sua numerosa população pobre, quando em países ricos como a Inglaterra, por exemplo, a tributação sobre esses bens há muito tempo se aproxima do zero. Tributar alimentos num país como o Brasil significa a mesma coisa que privar da alimentação, não a milhares, mas a milhões de pessoas carentes que o propalado programa Fome Zero anuncia que vai atender.
Se juntarmos à diminuição dos impostos sobre a comida a ocorrência de boas safras no campo, aí, sim, a grande massa de população carente poderá, ainda que com pouco dinheiro no bolso, ir comprando itens protéicos e vitamínicos de que antes sabia da existência apenas por ouvir dizer. A pouco e pouco, o funcionamento regular e sem traumas da economia nacional vai permitindo a reorganização e o estímulo da produção a custos a cada hora mais reduzidos. Juros declinantes no futuro, juntando-se às safras mais favoráveis e à diminuição do peso tributário sobre os alimentos vão permitir que parcelas crescentes da população tenham o acesso franco e não embargado à comida abundante e sadia. É isso direito de todos, não é prerrogativa de meia dúzia.