Edição de Segunda-Feira, 8 de Setembro de 2003
 

Início Diario de Pernambuco Os Holandeses em Pernambuco - Uma história de 24 anos Palácios, templos, jardins...

Diario

Índice Geral
Expediente
Ed. Anteriores
Assinaturas
 

Cadernos

Política
Brasil
Mundo
Economia
Esportes
Vida Urbana
Viver
 

Suplementos

Revista na TV
Empregos
Viver Mulher
Viagem
Informática
Saúde
Carro
Imóveis
 

Serviços

Loterias


Os Holandeses em Pernambuco - Uma história de 24 anos

Palácios, templos, jardins...

Coube ao Conde de Nassau realizar no Recife uma verdadeira revolução no âmbito de sua paisagem urbana. Ao seu tempo foram construídos o palácio de Friburgo (Vrijburg), também conhecido como Palácio das Torres, e a casa da Boa Vista (1643). Foi ele responsável pela instalação do primeiro observatório astronômico das Américas, no qual Georg Marcgrave fez, dentre muitas outras, anotações acerca do eclipse solar de 13 de novembro de 1640 (Barlaeus). Ainda por essa época foi erguido o templo dos calvinistas franceses (1642), obedecendo ao traço de Pieter Post. Tratou-se também do calçamento de algumas ruas e do saneamento urbano, além da construção de três pontes, as primeiras em grandes dimensões do Brasil; a primeira delas ligando o Recife à Cidade Maurícia (a nova cidade erguida na ilha de Antônio Vaz), inaugurada em 28 de fevereiro de 1644, uma segunda, ligando esta ilha ao continente, na altura da Casa da Boa Vista (imediações do Convento do Carmo) e uma terceira sobre o rio dos Afogados.

Sobre a construção dessas pontes, comenta o padre Antônio Vieira, no seu Sermão de São Gonçalo, a propósito da administração portuguesa no Brasil, assinalando ser "cousa digna de grande admiração e que mal se poderá crer no mundo, que havendo 190 anos que dominamos e povoamos esta terra e havendo nela tantos rios e passos de dificultosa passagem, nunca houvesse indústria para fazer uma ponte. 4

Durante o seu governo, o conde João Maurício de Nassau fez plantar no Recife, em 1642, um grande jardim recreio, que era também um pomar e dispunha de alguns animais vindos das mais diferentes partes. O jardim veio a servir de "laboratório" a membros de sua comitiva, notadamente o médico Willem Piso (16111678), o botânico, também cartógrafo e astrônomo, George Marcgrave (16101644) e o artista Albert Eckhout (c1610- c 1664). Os dois primeiros são autores da Historia naturalis Brasiliae etc., impressa em Amsterdã em 1648, 5 na qual são publicados 429 desenhos, em grande parte retratando a flora e a fauna, bem como nativos, do Nordeste do Brasil. De Albert Eckhout são a maioria dos desenhos reunidos nos quatro volumes que compõem o Theatrum Rerum Naturalium Brasiliae. Coleção de desenhos policromados, em sua maioria, de autoria dos artistas da comitiva do conde João Maurício de Nassau, enfocando elementos de história natural, atualmente encontrados na Biblioteca Jagelônica de Cracóvia (Polônia), ainda não publicados em sua totalidade. O conjunto é formado por 417 desenhos, em sua maioria aquarelados, retratando animais aquáticos, aves, mamíferos, répteis, insetos, aranhas, plantas, flores, frutos e catorze figuras humanas. Aos quatro volumes do Theatrum, sob os títulos, Icones Aquatilium, Icones Volatilium, Icones Animalium e Icones Vegetabilium, somam-se dois outros, conhecidos como "Manuais", com desenhos (peixes, aves, animais) atribuídos a George Marcgrave, e um terceiro, Miscellanea Cleyeri, com seus desenhos (pessoas, animais, aves e plantas) atribuídos a Albert Eckhout. Sobre o tema Petronella Albertin de Vries publicou sua tese de mestrado em História da Arte, apresentada junto à Vrije Universiteit Amsterdam (1981), sob o título: "Arte e Ciência no Brasil Holandês. Theatri Rerum Naturalium Brasiliae: Um estudo dos desenhos".6

Na descrição de um contemporâneo, Frei Manuel Calado, in O Valeroso Lucideno, publicado em Lisboa em 1648, 7

No meio daquele Areal estéril, e infrutuoso plantou um jardim, e todas as castas de árvores de fruto que se dão no Brasil, e ainda muitas que lhe vinham de diferentes partes, e a força de muita outra terra frutífera, trazida de fora e barcas rasteiras, e muita soma de esterco, fez o sítio tão bem acondicionado como a melhor terra frutífera; pôs neste jardim dois mil coqueiros, trazendo-os ali de outros lugares, porque os pedia aos moradores, e eles lh'os mandavam trazer em carros, e deles fez umas carreiras compridas, e vistosas, a modo da alameda de Aranjués e por outras partes muitos parreirais e tabuleiros de hortaliças e de flores, com algumas casas de jogos, e entretenimentos, aonde iriam as damas, e seus afeiçoados a passar as festas no verão, e a ter seus regalos, e fazer suas merendas, e beberetes, como se usa em Holanda, com seus acordes instrumentos ( ... ). Também ali trazia todas as castasde aves, e animais que pôde achar, e como os moradores da terra que lhe conheceram a condição e o apetite, cada um lhe trazia a ave ou o animal esquisito que podia achar no sertão, ali trazia os papagaios, as araras, os jacis, os canindés, os jabutis, os mutuns, as galinhas de Guiné, os patos, os cisnes, os pavões, os perus e galinhas grande número, tantas pombas, que não se podia contar, ali tinha os tigres, a onça, a suçuarana, o tamanduá, o búgio, o quati, o sagüim, o apeteá, as cabras do Cabo Verde, os carneiros de Angola, a cutia, a paca, a anta, o porco javali, grande multidão de coelhos, e finalmente não havia coisa curiosa no Brasil que ali não tivesse, porque os moradores lh'as mandavam de boa vontade.

Segundo testemunho do frei Manoel Calado a construção de palácios e horto botânicos, para onde eram transportadas árvores adultas, ocupava todo o tempo do Conde de Nassau que andava pela ilha com um cordão, traçando ruas e praças, demarcando limites, construindo parques arborizados, "tudo à moda de Holanda".

Para a população de menores posses, acostumada a morar em pequenas casas de tábuas, o Conde de Nassau projetou um bairro, localizado entre a igreja dos Calvinistas Franceses [local da igreja do Divino Espírito Santo] e o forte das Cinco Pontas, que aparece nos mapas como a Nova Maurícia (Nieuw Mauritsstadt), a qual veio a ser destruída pelos próprios holandeses em 1645.

1 BANCK, Geert Arent. "Memória e imaginário: pensando a cidadania atual no espelho do Brasil Holandês", in República das etnias. Rio de Janeiro:Museu da República, 2000. p. 51

2 BANCK, Geert Arent. Op. cit. p. 51

3 BARLAEUS, Gaspar. História dos feitos recentemente praticados durante oito anos no Brasil. Tradução de Cláudio Brandão; Apresentação de Leonardo Dantas Silva; Prefácio de José Antônio Gonsalves de Mello. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1980. 410 p. il. 60 gravuras, reproduzidas da ed. de Amsterdam de 1647, 27 assinadas por Frans Post (1645). (Coleção Recife; v. 4).

4 VIEIRA, padre Antônio. Sermões v. VII. Lisboa, 1689. p. 356.

30 PISO, Willem, MARCGRAVE, George. Historia naturalis Brasilae. Amsterdam, [s.n.], 1648.

31 ALBERTIN DE VRIES, Petronella. "Arte e ciência no Brasil holandês. Theatri Rerum Naturalium Brasiliae: um estudo dos desenhos". Revista Brasileira de Zoologia. São Paulo, Sociedade Brasileira de Zoologia, 1985, p. 250322. Algumas dessas pranchas, pintadas a óleo, bemcomo desenhos a lápis e creiom, foram publicadas por WHITEHEAD, P. J. P., BOESEMAN, M. Um retrato do Brasil holandês no século XVII, tradução Edmard Jorge. Rio de Janeiro: Kosmos, 1989, p. 236247.

32 CALADO, Manuel, frei. O valeroso Lucideno. Lisboa: [s.n.] 1648. 4. ed. Recife: FUNDARPE, 1985. (Coleção Pernambucana, 2fase; v. 13).








 

 
 
Sua Opinião


Copyright 2001 - Pernambuco.com

Todos os direitos reservados.
É proibida a reprodução parcial ou total do conteúdo
desta página sem a prévia autorização.
diario@dpnet.com.br