Data de 1636 o surgimento da nova sinagoga do Recife, que começou a ser construída na Rua dos Judeus no primeiro semestre daquele ano, segundo denúncia dos predicantes do Conselho da Igreja Reformada, Schagen e Poel, feita ao Conselho Político em 23 de julho:
Em primeiro lugar, observa-se que os judeus que residem aqui começam a estabelecer uma assembléia em forma de sinagoga, o que deve ser impedido (Dag Notule).
Em princípio funcionou a sinagoga em casa alugada, mas, logo depois, veio a ser construído um templo próprio em pedra-e-cal, possivelmente entre 1640 e 1641, conforme documento enviado ao Conselho dos XIX, com data de 10 de janeiro de 1641.
Em cerca de 1637, com a construção da cidade Maurícia pelo conde João Maurício de Nassau, em terras da ilha de Antônio Vaz (hoje ocupada pelos bairros de Santo Antônio e São José), surgiu uma segunda congregação judaica, "do outro lado do rio", a Kahal Kadosh Maguen Abraham (Santa Congregação Escudo de Abraão), aonde veio exercer o rabinato o erudito Moyses Raphael de Aguilar.
Formado em Amsterdã, onde em 1637 obteve o cargo de mestre da escola rabínica Ets Hayim, Moyses Aguilar embarcou para o Recife no início de 1641, acompanhado de um irmão, Aron Aguilar, e de um filho de sua irmã, Isaac de Castro Tartas, que veio a ser condenado pela Inquisição de Lisboa a morrer na fogueira em dezembro de 1647.8 Sobre ele, Daniel Levi de Barrios, cronista dos sefardins de Amsterdã, faz este elogio:
Dos sinagogas el Brasil ostenta,
Una en el Arrecife se ilumina
com Abuab; com Aguilar se aumenta
outra, Angélica en nombre y doctrina. 9
Em 1839, quando da publicação do Inventário dos prédios que os holandeses haviam edificado ou reparado até o ano de 1654, não se faz qualquer menção à sinagoga da comunidade Maguen Abraham, nem ao cemitério da comunidade10 localizado ao sul da ilha de Antônio Vaz, muito embora apareça com segurança a indicação do local onde funcionou a Zur Israel, a primeira sinagoga do Novo Mundo:
Humas casas grandes de sobrado da mesma banda do rio, com fronteira para a Rua dos Judeos, que lhes servia de synagoga, a qual he de pedra-e-cal, com duas lojas por baixo, que de novo fabricarão os ditos Judeus.11
A sinagoga Zur Israel estava situada no sexto lote de terreno, construído a partir do norte, funcionando no primeiro andar de um prédio geminado, servido por uma só escada, no qual existiam no andar térreo duas lojas, bem próximas à "Porta de Terra", que dava saída para o istmo que ligava o Recife a Olinda. Estabelecida em prédio especialmente construído para tal fim, a sinagoga tinha suas atividades litúrgicas no primeiro andar, onde ocupava um amplo salão. Tinha encostado à parede da frente, voltado para o leste, o armário em madeira (Aron Hakodesh), no qual eram guardados os rolos da Torá, e, ao centro, a Tebá, local elevado destinado aos oficiantes na leitura dos rolos sagrados e cânticos, com cadeiras destinadas aos membros de projeção da comunidade, em frente da Tebá, e bancos nas laterais.
Nesta primeira sinagoga em terras das Américas exerceu o rabinato o célebre Isaac Aboab da Fonseca que era português de nascimento. Natural de Castro Daire, distrito de Viseu, na Beira Alta, Isaac Aboab da Fonseca nasceu em 1605, tendo emigrado ainda criança com os seus pais para a França e, logo em seguida, para Amsterdã. Bisneto do último Gaon (máxima autoridade no ensino e interpretação da Lei) de Castilha, que em 1492 foi forçado a emigrar da Espanha para Portugal, estabelecendo-se na cidade do Porto, Isaac recebeu, ao nascer, o nome de Simão da Fonseca. Era filho de David Aboab e Isabel da Fonseca, que em 1612 já se encontravam em Amsterdã, "onde a família pôde, finalmente, observar com liberdade sua religião judaica". 12
Tendo estudado nas escolas judaicas daquela cidade holandesa, denominada de "A Jerusalém do Ocidente", Aboab da Fonseca foi, em 1626, designado Haham (rabino) da Congregação Beth Israel, função que ocupou até 1638 quando da unificação de três sinagogas ali existentes. Por desistência dorabino Menasseh ben Israel (1604-1657), veio a aceitar, em 1641, o convite da comunidade do Recife para vir presidir os serviços religiosos da sinagoga local, a Zur Israel, recebendo para isso o estipêndio de 1.600 florins anuais. Exercia ainda a função de Mohel, ou circundador, e vivia, ao que parece, exclusivamente do culto e do ensino do hebraico, da Torá e do Talmud para os que se iniciavam.
A sinagoga Zur Israel era integrada de personagens ilustres como o Hazan (o leitor), Jehosua Velosino; o Rubi (o mestre-escola), Samuel Frazão e o Samas (guarda e mestre das crianças) Isaac Namias, Bodeck (encarregado da matança dos animais) Benjamin Levy, segundo relação dos funcionários no ano de 1649. No ano anterior, a 16 de novembro, houve a fusão das comunidades Zur Israel e Maguen Abraham, ocasião em que foi elaborado o Haskamot, ou seja, Regulamento de 40 artigos através do qual iria se reger as duas comunidades, subscrito por 172 membros, adultos do sexo masculino, pertencentes à comunidade residentes no Recife e em Maurícia. 13
Tal era a importância da comunidade do Recife naquela época que o famoso erudito Menasseh ben Israel, rabino de Amsterdã, cujo nome português era Manuel Dias Soeiro, esteve para partir para Pernambuco em 1640. No Recife já se encontrava residindo o seu genro, Ephraim Soeiro, e alguns membros proeminentes da comunidade judaica de então que vieram a ser por ele homenageados: David Senior Coronel, Dr. Abraão de Mercado,14 Jacob Mocata e Isaac Castanho. A homenagem se dá em 1641 quando da publicação da segunda parte de sua obra El Conciliador etc., em quatro volumes (Amsterdã, 1632-51), na qual Menasseh ben Israel faz incluir uma dedicatória das mais significativas:
Nobilissimos y magnificos seÀores [...] y más SeÀores de nuestra nacion, habitantes en el Recife de Phernambvco, Salud.
1 MELLO, José Antônio Gonsalves de. Gente da Nação: cristãos-novos e judeus em Pernambuco. 1542-1654. Recife: FUNDAJ, Ed. Massangana, 1989. 552 p. il. (Estudos e pesquisas; n. 65). Inclui dicionário biográfico dos judeus residentes no Nordeste (1630-1654) e índice onomástico. p. 136.
2 BARLAEUS, Gaspar. História dos feitos, recentemente praticados no Brasil etc. Tradução de Cláudio Brandão; Apresentação de Leonardo Dantas Silva; Prefácio de José Antônio Gonsalves de Mello. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1980. XIII, 410 p. il. 60 gravuras, reproduzidas em fac-símile da ed. de Amsterdã de 1647, 27 assinadas por Frans Post (1645). (Coleção Recife; v. 4).
3 LIPINER, Elias. "Um episódio da autonomia dos judeus na História do Brasil", Revista Comentário. Rio, 1972. ano XIII n.º 50 p. 53-82..
4 CALADO, Frei Manuel. O valeroso Lucideno e triunfo da liberdade. 4. ed. Apresentação de Leonardo Dantas Silva. Prefácio de José Antônio Gonsalves de Mello. Recife: FUNDARPE; Diretoria de Assuntos Culturais,1985. 2v. (Coleção pernambucana; 2fase, v. 13), v. I, 350 p. v. 2, 318 p. il. p. 307
5 MELLO, José Antônio Gonsalves de. Gente da Nação. op. cit. p. 218-222.
6 Brasil Holandês O "Thierbuch" e a "Autobiografia" de Zacharias Wagener v. 2. Rio de Janeiro: Ed. Index, 1997, prancha 106, p. 197. WAGENER, Zacarias. Zoobiblion Livro de Animais. São Paulo, 1964, gravura 106.
7 MELLO, José Antônio Gonsalves de. "A Sinagoga do Recife holandês", in Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro: v. 149, n. 358-361, p. 75-82, 1988.
8 LIPINER, Elias. Izaque de Castro: o mancebo que veio preso do Brasil. Recife: FUNDAJ, Ed. Massangana, 1992. XIII, 322 p. il. (Descobrimentos; n.1) Bibliografia e índice onomástico e reprodução de páginas do processo nº 11.550 da Inquisição, Lisboa - ANTT.
9 BARRIOS, Daniel Levi de. Triumpho del Gobierno Israelitico Theocratico, Honores Funebres al [...] Jaxam Ishac Abuab.
10 O local do cemitério encontra-se assinalado no atlas desenhado por Johannes Vingbons (De JodseBegraef Plaets), em 1639, e repetido no mapa de Cornelis Bastiaansz Golijath, datado de 1648, que assim o assinala: Joden Kerckhof.
11 INVENTÁRIO das armas e petrechos belicos que os holandeses deixaram em Pernambuco e dos prédios edificados ou reparados até 1654. Recife: Biblioteca Pública de Pernambuco, 1940. 2. ed. p. 7.
12 BÖHM, Günter. Los sefardíes en los dominios holandeses de América del Sur y del Caribe 1630-1750. Frankfurt: Vervuert Verlag, 1992. p. 45.
13 Arnoldo Wiznitzer publicou o texto do Haskamot em 1953: "The records of the Earliest Jewish Community in the New World", in Publications of the American Jewish Historical Society, v. 42 n.º 3. Traduzido para o português em 1954, in Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, v. 74. José Antônio Gonsalves de Mello transcreve alguns tópicos do documento e a relação dos 172 signatários do documento de 28 páginas; deixaram de subscrever Isaac Nahamias, Mose Israel Pena, Aron da Silva, Moseh Drago e Rafael de Mercado. in Gente da Nação op. cit. p.335-345.
14 Primeiro médico e boticário do Novo Mundo. Depois do seu regresso a Amsterdã, recebe autorização do "Lord Protetor" Oliverio Crowell para emigrar para Barbados e lá se estabelecer como médico. Günter Bßhm, op. cit. p. 79.