Em curto espaço de tempo membros da comunidade judaica tomaram com do comércio, particularmente do açúcar e do tabaco, chegando uma pequena parte a possuir engenhos e a dedicar-se à cobrança de impostos e ao empréstimo de dinheiro. Alguns deles dedicavam-se ao comércio de escravos que, trazidos pelos barcos da Companhia da Costa da África, eram arrematados em leilões e vendidos a prazo aos senhores de engenho. Na Rua dos Judeus funcionava um mercado de escravos, Merckt opt Jodesnstraat, que Zacarias Wagener denominou de Slavenmarkt e o retratou na sua série de aquarelas, pintadas no Recife entre 1634 e 1641.6
Com o crescimento da população judaica, o Conselho Político, em sua reunião de 9 de novembro de 1635, assim decide:
Como a extensão e área do Recife é pequena para acomodar os comerciantes livres em suas necessidades e negócios, resolveu-se vender um terreno medindo oitenta pés de comprimento e sessenta de largura [24,3440 m. x 18,2880 m.], situado fora de portas onde se costuma fazer a ñguarda do bodeá (bochenwacht), ao Senhor Duarte Saraiva, comerciante livre aqui, pelo preço de 450 reais e oito, para que construa uma casa segundo o seu gosto, ou para vender o terreno ou casa e o terreno para seu lucro.
Esse primeiro lote era localizado junto à "porta de terra", ao Norte do Recife, no istmo que ligava a povoação do porto à vila de Olinda. Graças às construções ali realizadas, neste e em outros lotes que vieram a ser comprados pelos mais ricos comerciantes da comunidade, já a partir de 1636, fez surgir a Rua dos Judeus (Jodenstraat), denominação que se manteve até 1654, quando da retirada dos holandeses de Pernambuco.
Duarte Saraiva, conhecido entre os do Recife e da Holanda pelo nome de David Senior Coronel, era judeu português, natural de Amarante, onde nascera em cerca de 1572, e membro da renomada família Senior Coronel radicada em Hamburgo. No Recife foi um dos nomes mais respeitados do seu tempo, sendo homenageado pelo conhecido rabino de Amsterdã, Menasseh ben Israel, quando da publicação do seu livro El Conciliador (Amsterdã, 1641). Deixara ele um filho em Amsterdã, Isaac Saraiva, que exercia as funções de rabino e mestre-escola entre os judeus portugueses e um dos principais líderes daquela comunidade.
No Brasil Holandês, o nome de David Senior Coronel aparece vinculado a compra de escravos da costa da África, fretamento de navios, corte de madeira, rendeiro, proprietários de seis imóveis (três dos quais na Rua dos Judeus) e outros negócios como o de cobrador de dízimos. Por duas vezes (1639 e 1644) ele arrematou a cobrança dos impostos da Companhia sobre a produção do açúcar em Pernambuco, despendendo na primeira vez a quantia de 128.000 florins. Foi proprietários dos engenhos Velho do Beberibe, Bom Jesus do Cabo, São João do Salgado, Novo do Cabo, Camaçari, Rosário da Torre e o Madalena, por ele vendido a João de Mendonça Furtado. Faleceu no Recife em 1650 e deixou de créditos a receber da coroa portuguesa (1672) a importância de 351.502 florins.
Na casa de David Senior Coronel funcionou, antes de 1636, uma primitiva sinagoga, depois estabelecida de forma definitiva com o nome de Kahal Kadosh Zur Israel, ou seja, a "Santa Comunidade o Rochedo de Israel". O nome de batismo da nova comunidade talvez viesse em alusão ao próprio Arrecife. É desta época a visão de outro contemporâneo, o reverendo calvinista Joannes Baers (1580-1653), que assim sintetiza a descrição da cidade de então: "o Recife é um arrecife".
Na Rua dos Judeus residiam aqueles que tinham alcançado as melhores condições econômicas e muitas de suas casas foram construídas pelos proprietários, pois que a área da Rua dos Judeus foi incorporada à cidade após a ocupação holandesa. Nessas casas a parte residencial colocava-se no andar ou andares superiores, ao rés-do-chão ficava a casa de negócio. Vários judeus ricos moravam nessa rua, como Gaspar Francisco da Costa (aliás José Atias), Moisés Navarro, Abraão Azevedo e Duarte Saraiva (aliás David Senior Coronel), dentre outros.7