O Cantor Ionesco, by Abujamra: no Barreto Júnior
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Abujamra, esse estranhíssimo personagem, criou um concurso em que todos executassem um só texto. Genial! Ontem vimos os 3 escolhidos de Pernambuco, vindos da seleção em Salvador. Fiquei feliz em ver na primeira fila, contracenando com Nicole, o nosso primeiro Mr.Smith, dos tempos das 3 Farsas do Giramundo. Depois me perguntei: o que é que a Vahia tem? Tá certo, vahianos, em música vocês estão séculos à frente de nós. Mas levam de 1000 em teatro, ô momôe! O que é então que a gente foi fazer na Vahia? Tirante isso, temos que dizer que quem bolou foi o Ravengard e ele bota o concurso dele aonde quiser, até mesmo em plena mata amazônica. Afinal o grupo que ganhou usava penas de urubu-auau na cabeça e lá o seringal promoveu aquele teatro enooorme para índios, incluído pela Marina num PPB, projeto de preservação de biodiversidade.
Em Brasília, só se pensa cultura em termos de plantação de plantinhas. E que 2 plantinhas!... Serve uma para fabricar cassetete; a outra, a Mac, sonhos. Dos 3 finalistas, o sonho ficoucom nosso grupo de Terra dos Meninos Pelados. Isso dá uma ascensão vertiginosa para um grupo que começou ontem, papou um festival infantil e agora papa uma seleção prá lá de adulta. Antigamente o cara se preparava a carreira toda para ser um Hamlet. Oh, contradição! Acabava interpretado por gagás um moleque, cheio de problemas de moleque. Mas era assim. Hoje, graças a deus, duas meninas, Andréia & Yara - a última nem gostava tanto assim de seguir aulas, especialmente as minhas - estavam lá, em palco, segurando bem as pontas no - provavelmente mais difícil e pior - papel que se possa dar a uma atriz. Imagina a uma atriz guria. Que fazer senão aplaudir de pé?!
Houve um porém. Se é regra durar 10 minutos, dever-se-ia liquidar tudo o que fosse 10'01"!! Lógico? Bem, quando se trata de Ionesco, é exatamente a lógica o forte, o essencial sobre o que joga a linguagem. Se Yara tivesse lido minha apostila, teria descoberto lá uma longa análise da Cantora Careca sob esse prisma. Mas alunos, deus meu, como embranquecemnossos cabelos!
Burramente se congregou o texto de Ionesco, Beckett e tantos sob o apelido de teatro do absurdo. Absurdo é um elemento chave da filosofia sartreana, que tem bastante a ver com a maioria dos autores fixados nesse covil, apenas para quem leu somente a orelha de seus livros. Mas universidades, deus meu, como embranquecem nossos cabelos!
Abujamra adaptou o texto para um módulo de 10 minutos. Em uma velocidade razoável, só o texto falado ocupa os 10 minutos. Aquela velocidade toda portanto, que você viu no primeiro e terceiro, não era marca de direção, mas imposição do texto. Não se entendendo bem Abujamra, risca-se de se confundir tudo e se acelerar erradamente o texto. O absurdo de Ionesco - não sendo o sartreano, nem o do senso comum - pode virar porralouquice e quejandos, escorregão aqui e ali de duas das trupes, inclusive a premiada.
O que está na Cantora Careca? Uma série de episódios que vão do senso comum à desregulação total da linguagem, pelo seu uso. No final um fala "cacatua cacatua" como um papagaio, posto que Cacatua é da espécie. O outro responde "aeiouiaeiouaeiou" e outro.. .
Você usa o desodorante Axé? Eu não, mas viu como está virando nas propagandas Acse. Como desodorante tem a ver algo com odor, & axé com etnias, estavam era rimando vahiano com bodum. Estúpidos! Em um dialeto - e a propaganda é quase um- um grupo particular como os vahianos altera alguns sons lhes atribuindo novos valores. E é esse o finale de A Cantora Careca. Daí que só o segundo grupo fez a coisa certa. Tendo 10 minutos, gastaram ionescamente apenas 10. Como? Concentraram-se no gran finale, onde a linguagem se torna um tipo de dialeto individual. E no centro desse vórtice incluíram todas as gags minutadas, toda as preciosas mudanças de personagens. Pois é isso o absurdo: modifica as pessoas, logo, os personagens também.
Com um traço diferencial, diria Derrida, um risco fundamental diria Heidegger, uma medalha sol, virada bandeja e desaparecida às costas. BLZ pura! Dá para sacar? E aí cabe a velocidadeferoz. Dentro do finale. Esse único momento em que o texto pode muito bem ser dado inteiro sem ser entendido pela platéia, nem por ninguém. Pois todas as regulações, que não individuais, caíram por terra. Foi aí que você pode ver aquela beleza de espetáculo de Bosschar, Ernesto & Fabiana Pirro, como um AEIOUAEIOU dito em moto perpétuo! Jogando para dentro do final o conjunto do texto como um buraco negro vertiginoso.
Em justos 10 minutos, liquidificou-se toda a essência de Ionesco, o suco, o prazer, o vermelho pitanga da coisa. E fizeram-no com leveza. Dançando, pois a única coisa próxima de um texto semelhante é uma partitura. Escritura rigorosamente estabelecida para produzir sons tão "imotivados" quanto um AEIOUAEIOU. Escritura de celebração, essa de Ionesco by Abujamra. Foram lá então na métrica do texto e dançaram. Voaram por sobre nossas cabecinhas. Eu aplaudo deitado, pois nossa melhor posição ainda é essa. Sou suspeito, por ser fã de carteirinha de Bosschar & Ernesto. Afinal produziram o melhor espetáculo do século XXI em Recife, que é Os Pesadelos de Martha Stewart (ainda não foi ver? Peraí por que continua me lendo, então?! Convide-se::99651628). Aquilo é isso aí: a continuação de uma linhagem que passa por Ionesco, Samuel Beckett, H.Pinter, Albee; e, por que não, entre outros e avant la lettre, por algumas obras desse eclético Anouilh?
Resumindo para 100 linhas:
a- Se é para 10 minutos, a adaptação tem que permitir uma respiração cênica. Abujamra decidiu não permitir isso e sacaneou com todos, criando, claro, um concurso dificilíssimo. E isso é ser gênio. Então eu beijo-lhe os sacrossantos pés comovidos.
b- Apesar dos grandes méritos dos outros dois grupos, Bosschar, Ernesto & Cia estão lavando nossas almas de impurezas populistas, regionalistas, sub-provincianas e devolvendo-nos o lugar na história que a Vahia tá querendo nos surripiar na base do bafo e da barulheira dos mídia. Pois Recife é isso aí: um antro do mais culturalmente atrasado, infestado de um coquetel de vírus de modernidade, pós-modernidade. Mother'n'idades. Somos uns rinocerontes perdendo os cornos, diria Ionesco, acrescentando: "AEIOUYSPILÔNE!". E isso não é pouco.
Prof. João Paulo, dá para mandar uma mesa de som e de luz novas para o Barreto Jr.? Ele e o Parque são os únicos teatros a realizar algo social no sentido PT do termo. O resto, vá lá e fecha... Então, capricha na ameixa....