Espetáculo dirigido por Bibi Ferreira ironiza mau comportamento da platéia em espaços como o teatro
Maria Eduarda Antunes
Da equipe do DIARIO
Muitas vezes, no teatro, o público tem a impressão de estar assistindo a dois espetáculos. Enquanto, de um lado, atores interpretam seus papéis, do outro tem início uma verdadeira sinfonia de tosses e telefones celulares, insistindo em "roubar a cena" tocando fora de hora. Completando a incoveniência, quem nunca precisou se esticar na cadeira tentando ver a ação, na hora em que os retardatários passam bem na frente dos outros para encontrar o lugar marcado? Essas e outras situações sempre chamaram a atenção do ator Antônio Fagundes, que as tomou como mote divertido para escrever a peça Sete Minutos, na qual também atua. Neste final de semana, ele apresentará a montagem de sexta a domingo, no teatro da UFPE. Quem assina a direção é Bibi Ferreira.
Ao todo, seis pessoas dividem o espaço para contar a história de uma companhia teatral, numa noite cheia de surpresas. O Ator (Fagundes) está atuando em Macbeth e interrompe a encenação por causa de um celular tocando na platéia. A partir daí, o grupo vive as maisdiversas situações, envolvendo a Empresária (Suzy Rêgo), os espectadores (Tácito Rocha e Neusa Maria Faro), o Ator Jovem (Dênis Victorazo) e o Tenente (Luiz Amorim). "Botamos o público no centro do espetáculo. Todos riem muito, pois se identificam com as situações", diz Fagundes. Mas, detalhe: continuam tossindo e fazendo barulho.
De acordo com o ator-autor, o título da peça representa o tempo mínimo que as pessoas conseguem usar, atualmente, para se deter diante de uma informação. Sete, explica, é um número arbitrário, como poderia ser cinco, dois, ou outro qualquer: "Neste mundo multifacetado, tudo fica obsoleto rapidamente e não conseguimos prender a atenção das pessoas por um período grande. Mesmo assim, ainda há um espaço escuro, confortável, onde todos ficam durante uma hora e meia para apreciar um trabalho. E isso que nos move é a paixão pelo teatro", define.
RESPEITO - Em relação à direção de Bibi Ferreira, o ator não economiza elogios. Segundo afirma, a peça não poderia ser dirigida por outroprofissional. Considerando-a grande em tudo o que faz - como empresária, atriz, cantora - ressalta: "É a nossa dama do teatro. Foi uma honra ela ter aceito o convite para este trabalho", revela.
Essa é a segunda peça assinada por Fagundes (a primeira foi Por Telefone). A experiência é considerada por ele como uma extensão do trabalho de ator. Apesar de escrever, não se considera autor, por não manter a atividade com regularidade. Quanto ao fato de estar no palco encenando o próprio texto, diz que a emoção é dobrada: "Aliás, triplicada, porque a produção também é minha. É muito grande o prazer de ver o trabalho sendo analisado por outros. É uma forma diferente de tocar as pessoas".
Confessando ser a interpretação sua grande paixão, ele analisa a situação atual do país, afirmando que o contexto praticamente "empurra" o ator a produzir peças, ao invés de serem contratados por grandes produtores. "É complicado, porque o teatro é taxado como qualquer outra indústria. Quem tem isenção são os patrocinadores. Embora possamos agradecer a eles, cria-se uma dicotomia. O mercado, como um todo, por saber que o dinheiro vem de grandes empresas, eleva muito os custos. Por exemplo, se um espaço de anúncio custa R$ 10,00, passa a valer R$ 1000,00", explica.
Com o olhar clínico de quem começou a carreira em 1966, atuou em mais de 40 espetáculos, 21 novelas, três seriados de TV, 37 longas metragens e ganhou 36 prêmios de Melhor Ator em teatro, cinema e televisão, ele está otimista em relação ao surgimento de novos talentos: "O teatro é a única escola para o ator. Nos outros veículos, até pela rapidez com a qual se trabalha, não há tempo para aprender muito. O profissional usa, ali, a bagagem adquirida no palco", ensina.
CARREIRA - Sete Minutos já foi vista por mais de 150 mil espectadores desde a estréia, em julho do ano passado. A peça já passou por lugares como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, Curitiba e Aracaju. Depois do Recife, seguirá para Maceió, Campo Grande, interior paulista e, até o finaldo ano, Portugal. Assim, Fagundes vai dividindo o tempo com as gravações de Carga Pesada e garante: "Não dá tempo para fazer mais nada!".
Apesar de tratar com bom humor os contratempos ocorridos na platéia durante um espetáculo, a produção avisa: não será permitida a entrada de pessoas depois que a peça começar e aos atrasados não será devolvido o dinheiro do ingresso.
Serviço
Sete Minutos - Sexta e sábado, às 21h; domingo, às 20h. Teatro da UFPE - Campus. Fone: 3453.4344. Ingressos: R$ 50,00 e R$ 25,00 (estudante). À venda nas lojas Spelunka dos Shoppings Recife (3301.4161) e Tacaruna (3301.7549).
Não será permitida a entrada de pessoas depois que a peça começar e aos atrasados não será devolvido o dinheiro do ingresso.