Edição de Quinta-Feira, 21 de Agosto de 2003
 

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Opinião

Sacrifício pela paz

Viver é muito perigoso. É esta a advertência recorrente e repetida que Guimarães Rosa põe na boca do principal personagem de Grande Sertão: Veredas. A sentença quis exprimir o estado de espírito entre os combatentes do cangaço mineiro prontos sempre mais para matar do que para morrer. A morte era, neles, o trivial variado. A vida, um assombro a ser abatido.

  Mas o que antes parecia restrito aos sertões gerais do Urucuia e de alguns sítios da caatinga nordestina, que o errático Virgolino infestava, à frente de numerosa súcia, agora se abate sobre quem quer que seja, o vulgo ou a autoridade, ainda que nos quadrantes mais remotos do mundo. O trucidamento do diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello, no centro de Bagdá, levado brutalmente da vida pelo estrondo de toneladas de dinamite, consagra a trágica pedagogia de Rosa, ou melhor, de Riobaldo Tatarana, e entristece até as lágrimas a multidão dos que em todo o orbe acreditam, contra as mais façanhudas evidências, nos esforços de alguns beneméritos em prol dapaz.

  É importante que no meio das lástimas se pare um pouco para pensar. O caminhão abarrotado de explosivos do terrorista iraquiano não levava apenas a morte. Antes, levava coisa pior. Levava quilos de ódios fermentados. Ódios contra vizinhos e ódios contra estrangeiros. Ódios culturais e ódios beligerantes. Ódios ancestrais e ódios que recém-nasceram. Ódios manifestos e ódios induzidos. Ódios cegos e ódios estudados. Tudo ódio irado que o fanatismo vem cultivando há gerações com o zelo e a dedicação que se vota à prática da benevolência. Foi esse ódio que armou o braço assassino do crime que prostrou Dag Hammarsjoeld, o cavaleiro da paz sueco. Que executou o peregrino pacificador, o mahatma Gandhi, que nem se queixou do tiro, dizendo apenas "assim se faz a vontade de Deus", na agonia final. Que agora vitima outro feitor da paz no mundo, o diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello.

  Quem leu um pouco da História e coteja os sucessos de antigamente com os de hoje pode imaginar que agora o fanatismo se encontra mais bem municiado de apetrechos para o crime do que ontem. Pode ser. Pode também acontecer que a impunidade de que se beneficiam sobretudo os mandantes de muitos desses atentados ignominiosos venha servindo de poderoso estimulante para o ataque sombrio a inocentes. No caso de Bagdá, estavam ali os emissários das Nações Unidas só preocupados em ajudar na reestruturação do país devastado pela guerra recente, não estavam a tramar a descapitalização e o empobrecimento do país como se poderia supor à primeira vista. Levavam também para lá remédios e comidas, mas o fanatismo os pagou com o estrépito de uma explosão ceifadora de vidas preciosas.

  Impróprio e indevido como instrumento de luta política, e covarde por sua mesma natureza, o terrorismo há de ser combatido com propósitos de aniquilação, para que a vida humana seja digna de ser vivida. Para que a vida não viva sob o signo da ameaça permanente. Para que matar, sim, venha a ser suficientemente perigoso. Muito perigoso.

E por falar em convivência...

Tereza Halliday
JORNALISTA E ANALISTA DE DISCURSO

Circulou pela Internet texto explicando por que Romeu e Julieta permanecem símbolo do amor eterno. Em resumo: porque Romeu não teve tempo de conviver com a TPM de Julieta, nem esta com as mentirinhas de Romeu e porque morreram antes de sofrer cobranças e expectativas não preenchidas. Sua curta vida a dois foi só suspiros e arrebatamentos. Tornaram-se trágicos no amor impossível, escapando da tragédia quotidiana do amor inviável pelo desencontro de valores, sentimentos, corpos e almas.

  Com ares de experiente, um rapaz apontou-me o "x" da questão nos relacionamentos: "A mulher espera que o homem mude e ele não muda. O homem espera que a mulher não mude e ela muda". Não obstante, há mulheres que não mudam, enquanto alguns homens ficam mudados. Da direção e teor das transformações aos olhos do outro, costuma depender a continuidade da relação.

  Há casos em que a mulher muda porque, no início, por medo de desagradar ou gosto em agradar, cede muito pensando que lhe custa pouco. Acha que vale a pena, a bem do amor. Lá um dia, cansa de não ser plenamente ela mesma e passa a sê-lo, de vez ou aos poucos - em qualidades e em defeitos, que soube travestir de mulher adequada àquele homem - o seu amado. Aí, ele se espanta: "Não é a mesma mulher de quando a conheci". Conheceu nada... Ela não deixou.

  Segundo minha avó, no começo, nem o homem mostra quem ele é, nem a mulher quem ela vai ser. Para não ferir, para parecer bacana. Às vezes, ser verdadeiro fere o outro. Não o ser, também. Aí, como é que fica? Não fica. Ou vai se levando. Recordo pequena escultura humorística, representando um adulto, ao pé da qual se lia: "Tenha paciência comigo. Deus ainda não acabou de me fazer". É assim mesmo: somos todos sinfonias inacabadas, às vezes cacofonias. E desejamos desesperadamente acertar o compasso com alguém, tocar o dueto perfeito - utopia do romantismo. Alguns aprendem que é melhor tocar juntos, meio desafinados, do que dar show de solista desacompanhado. O concerto da vida, sem estréia triunfal nem grand finale, vale pelos ensaios cotidianos com o parceiro, pelo empenho em tocar limpinho, como exortam os professores de música.

  Vi na TV o casamento de uma artista holandesa consigo mesma. Diante de amigos e parentes, prometeu solenemente amar-se e respeitar-se, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença e cuidar de si própria até que a morte a separe de seu corpo. Assumiu publicamente o compromisso de ser fiel a seus sentimentos todos os dias da sua vida. Disse que aos 30 anos já se conhecia o bastante para aceitar esta responsabilidade.

  Talvez o autocasamento seja um bom pré-requisito para outras convivências. Como não somos ilhas, permanece o desafio de encontrar o delicado equilíbrio entre ser fiéis a nós mesmos e ser atentos aos outros. Se fosse fácil, os psicoterapeutas não teriam tanto serviço.

terezahalliday@yahoo.com

Pensar (e repensar) Pernambuco

Marco-Aurélio de Alcântara
JORNALISTA

Muito oportuna a iniciativa de um grupo de profissionais liberais de Pernambuco de editar, em plaqueta e sob a forma de ensaios, suas reflexões sobre o presente e o futuro de Pernambuco, onde vivemos e trabalhamos. Caio Fernando Pontual, Francisco Carneiro da Cunha, Sérgio C. Buarque, Paula Schmidtbawer Rocha, Paulo Dalla Nora Macedo, Bruno Queiroz, Carmen Cardoso, Paulo Emílio Pessoa de Melo, Paulo Gustavo, Roberto Montezuma, Ricardo de Almeida e Neide Câmara - esta ìltima, autora do belo desenho gráfico da plaqueta - dão o seu contributo a um plano estratégico que, é forçoso reconhecer, vem faltando ao nosso Estado. Exceção, talvez, o governo Cid Sampaio que foi autor de um plano estratégico de crescimento econômico à base da promoção industrial (1958 / 1961 ). E teve, na equipe da antiga Codepe (Comissão de Desenvolvimento Econômico) um grupo de planejadores, à frente dos quais o economista José Antônio (Zito) de Souza Leão, recentemente falecido.

  Concordo com Caio Fernando Pontual que "para mudar Pernambuco, é preciso mudar a maneira de pensar Pernambuco". E o estudo recente de José Raimundo Oliveira e Aristides Monteiro Neto, intitulado "A Economia de Pernambuco no Limiar do Século XXI" (Desafios e Oportunidades para a Retomada do Desenvolvimento) oferece roteiro seguro para os políticos interessados em definir estratégias de desenvolvimento e uma agenda interativa com políticas públicas.

  Sérgio C. Buarque aponta que a diversidade industrial de Pernambuco é, simultâneamente, sua fragilidade e sua fortaleza ao contribuir "para aumentar o diferencial competitivo do Estado, criando também uma maior capacidade de adaptação da economia pernambucana às intensas mudanças dos contextos mundial e nacional".

  Ele aponta a diversidade e criatividade cultural aqui existentes como pré-condições para uma "indústria da cultura", vamos assim chamar, que inclui da produção editorial à produção cinematográfica, "favorecendo... a atração para o estado de intelectuais, artistas, pesquisadores e profissionais qualificados em busca de um clima propício à criatividade..."

  Mas, essa criatividade do pernambucano esbarra ou no "Complexo do Coroné" ou no "Amor pelo Mocambinho", como chama Paulina Schmidtbawer da Rocha no seu ensaio. A fantasia do "Coroné", herdada das casas-grandes dos engenhos e usinas, e que permanece no imaginário popular, é "o poder mandar nos outros". O "Amor pelo Mocambinho" é outro complexo local de inferioridade (é bom ler o que Lopez Ibor escreveu, nesse capítulo, sobre o espanhol e seu complexo de inferioridade, para identificar as semelhanças com o caso pernambucano): "As pessoas querem ter as coisas sempre certinhas, bonitas, bem arrumadas, mas não vão até o fim para concretizá-las".

  Pernambuco pode ter perdido uma grande oportunidade de alavancar o seu desenvolvimento a médio e longo prazos, se os recursos da venda da Celpe (quase R$ 2 bilhões; e não haverá outra Celpe a vender) se tivessem dirigido a um programa estratégico que, desdobrado em projetos geradores de cadeias produtivas (clusters), alistasse mais 4 ou 6 bilhões de reais do BNDES, BID, Banco Mundial CFI, Kreditanstalt fur Wiederaufbau e bancos privados - nacionais e estrangeiros, como já apontaram analistas.Aí se incluiriam a cotonicultura, a recuperação dos setores têxtil e metal-mecânico, a Transnordestina, a cultura da cana-de-açúcar, a indústria processadora de carne de peixe, a indústria de fármacos, o Canal da Redenção, o pólo de confecções Toritama/Caruaru, entre outras. Optou-se pela "política do betão" - estradas, adutoras, aeroporto - antecipando recursos do OGU (Orçamento Geral da União) - todas obras importantes no setor de infra-estrutura, mas que já contavam com recursos federais consignados através de emendas dos parlamentares. Por outro lado, e na linha de Sérgio C. Buarque, faltou até agora uma política cultural centrada na defesa do livro, da leitura (bibliotecas), do estímulo à criação artística (artes plásticas e artes do espetáculo: dança, teatro e música), valorização do patrimônio arquitetônico classificado. Tudo istopara evitar que se caia na aventura de deixar que nos confisquem o futuro, enredando-nos no eleitoralismo do presente, e esquecendo o passado.

Reforma da Previdência

Jonas Ferreira Lima
INTEGRANTE DA ACADEMIA PERNAMBUCANA DE LETRAS JURÍDICAS

Dia 8 de agosto corrente, no auditório da Apse, foram proferidas duas importantes palestras sobre Reforma da Previdência: a do desembargador federal Francisco Queiroz e a do deputado federal Carlos Mota (PL-MG). Convidado pelo Clube dos Previdenciários para encerrar a solenidade, ressaltei a relevância do acontecimento ao mesmo tempo político, mas não partidário, e jurídico na sua acepção científica. Ambos, o político e o jurídico desaguando, entretanto, no objetivo comum de derramar luzes sobre a certeza de que se tem de potencializar a responsabilidade que cabe a cada um de nós de não permanecer indiferente em relação a fatos que, direta ou indiretamente, nos atingem como cidadãos. O silêncio, nesse caso, não caracteriza prudência, e sim, um tipo de omissão que robustece os efeitos maléficos do equívoco que nos está sendo imposto. Decolando dessa ótica impõe-se acatar como oportuna, justa e corajosa a greve dos servidores federais; lúcida e desassombrada a reação da magistratura. O esclarecimento vem de enfoques dessa espécie. Do atrito das idéias resulta, sempre a conclusão que a inteligência acolhe para definir as diretrizes do comportamento.

  A reforma da Previdência, açodada e repetitiva, na perplexidade de seus erros, tem ligações profundas e enraizadas com os atentados à soberania nacional. Não é exagerada a denúncia do presidente do TST, ministro Francisco Fausto, de que, é ela determinada pelo FMI, pelo Banco Mundial, em síntese, pelos organismos que controlam a economia brasileira. Não resta dúvida que essa reforma é a busca ansiosa da privatização da Previdência para entregá-la aos fundos de pensão complementar geridos pelos bancos privados. Ora, 90% da importante rede bancária do Brasil está nas mãos de bancos estrangeiros. só nos restam três grandes bancos privados: o Bradesco, o Itaú e o Unibanco, este último, ao que diz, ligado ao Chase Manhattan. Assim, o fundo de pensão complementar aberto alimentará o apetite do capital alienígena e a banqueirada nacional. Enquanto isso não se toma a menor providência para controlar o fluxo enorme de recursos para o Exterior. Não se cogita sequer de iniciativa para renegociação da demolidora dívida externa à base de um comportamento escoimado do costumeiro servilismo. Falta coragem para enfrentar os riscos de uma decidida afirmação da nossa soberania. Ao contrário disso procura-se "curar" os males injetando o veneno da perseguição no debilitado organismo das classes trabalhadores como se elas fossem culpadas e não vítimas da miséria que se derrama sobre o País.

  O presidente Luiz Inácio, a essa altura, atacado de um surrealismo político calamitoso, fala a mesma linguagem de Dom Fernando I, o Collor, e de Dom Fernando II, o Cardoso. Não em matéria de corrupção, mas de ideologia. Um neoliberalismo exaltado!

  Infelizmente, parece que na América Latina os candidatos à Presidência, ao assumirem o Poder, são acometidos da síndrome do esquecimento, enfermidade que destrói, vertiginosamente, a responsabilidade de honrar os compromissos assumidos na campanha eleitoral. Nesse contexto, Lula já esta considerado um mensageiro que perdeu, prematuramente, a mensagem de que se dizia portador. A erosão da confiança que inspirava fez sua imagem despencar no vazio, arrastando a sobrevivência das "esquerdas", sem, contudo, faturar qualquer prestígio na "direita". Um inútil "revolucionário" do conservadorismo"








 

 
 
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