Edição de Quinta-Feira, 21 de Agosto de 2003
 

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Ironias do destino

Luis Fernando Verissimo

Ironia do destino. Os americanos apoiaram o Saddam Hussein durante anos porque o governo secular do Iraque era uma alternativa à teocracia antiamericana no poder no Irã. Saddam já era um tirano, mas um tirano "do nosso lado". Não é delírio imaginar que uma das conseqüências finais da invasão e ocupação americana do Iraque e da liquidação do partido Ba'ath seja uma teocracia shiita, como a iraniana, no poder em Bagdá. Dupla ironia do destino.

  Muitos dos responsáveis pela atual política externa dos Estados Unidos fazem parte da estranha aliança de fundamentalistas cristãos e apoiadores da extrema-direita israelense que pregavam a guerra ao Iraque com mais fervor. Um dos resultados da guerra foi que os americanos ficaram moralmente obrigados a serem, ou pelo menos parecerem, mais imparciais na questão Israel/Palestina, para tentar diminuir a ira dos fundamentalistas islâmicos, e cobrarem concessões do Sharon em troca do favor de terem liquidado o Saddam. Ironia de pai para filho do destino.

  Dizem que as partes ainda não publicadas do relatório sobre as falhas no sistema de segurança americano que permitiram a tragédia de 11/9 foram censuradas porque tratam das relações da família Bin Laden, da qual Osama é, digamos, o filho difícil, com o grupo "Carlyle", no qual a família Bush tem, digamos, interesses. Tratam das repetidas vezes em que agente do FBI foram aconselhados a não investigarem estas relações e as finanças dos Bin Laden e a não serem muito curiosos sobre as atividades de agentes da família real da Arábia Saudita, os atuais tiranos "do nosso lado", nos Estados Unidos, antes e depois do atentado.

  As revelações que ainda podem surgir sobre esta meleca toda até Bush buscar a reeleição, mais a evidência de que o presidente mentiu para ir à guerra (bombardear civis estrangeiros ainda vá, mas mentir para o povo americano!), mais o atoladouro em que está se transformando o Iraque - e mais, claro, o mau estado da economia dos Estados Unidos - podem fazer o Bush filho repetir o Bush pai, que passou de heróiinvencível a candidato perdedor em meses. Se houver algum outro Bush na fila pensando em ser presidente, que aprenda a lição e faça a sua guerra mais perto da data da eleição. Suprema ironia do destino.

  A mais alta autoridade entre os envolvidos de um jeito ou de outro na guerra do Iraque a morrer até agora não foi, que se saiba, o Saddam Hussein, nem qualquer líder militar ou político americano ou inglês, mas um homem que estava lá para ajudar a organizar a paz. E do Brasil, que não teve nada a ver com a história.








 

 
 
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