Para algumas fontes flamengas, uma das grandes perdas para as forças luso-brasileiras foi a passagem para o lado dos holandeses do jesuíta paulista Manuel de Moraes, quando da tomada da Paraíba em 30 de dezembro de 1634, pelas tropas comandadas pelo coronel Chrestofle dá Artischau Arciszewski, segundo assim descreve o autor das Memórias Diárias:
O padre Manuel de Moraes com um lenço em um pau foi render-se ao inimigo, tão esquecido das obrigações de sua profissão, que a este juntou o maior, que foi casar-se depois em Amsterdã, sendo sacerdote e pregador apostólico, e abraçar a seita de Calvino!
Era este jesuíta um grande conhecedor da língua dos indígenas, revelando-se posteriormente autor de um Dicionário da Língua Tupi e de uma História da América, cujos originais receberam mais tarde elogios do filólogo Hugo de Groot.
Exercia papel da maior importância entre as forças da resistência, como comandante das milícias indígenas a quem ensinara às técnicas da guerra de guerrilhas. Dele testemunhava, em 1631, Matias de Albuquerque: "pelejava com tão notável zelo e ardis como se fora sua profissão a guerra e milícia". Por sua vez, era visto por fontes holandesas, na Paraíba para onde se transferiu, como "a maior autoridade sobre todos os selvagens daquela região".
Mestiço, descrito por uns como mulato e por outros como mameluco, ele vivia a sete anos entre os indígenas e mais recentemente encontrava-se empenhado em ministrar táticas de guerra volante. Dentre os seus aplicados alunos figurava o futuro herói da restauração e futuro dom, Antônio Filipe Camarão, que vem a ser seu sucessor no comando daqueles batalhões.
Constrangido por ter perdido a função de capitão geral dos índios para o seu aluno Antônio Filipe Camarão, o padre Manuel de Moraes aproveitou a rendição da Paraíba para aderir à causa dos holandeses, renunciando sua fé católica e tornando-se um pregador luterano.
Caindo nas boas graças do comandante Arciszewski, o padre ganhou notoriedade ao renunciar a teologia católica tomando-se de paixão pelos ensinamento da igreja reformada.
A sua inesperada adesão, logo se transformou em propaganda da igreja reformada: Padre torna-se protestante. Foi o padre Manuel de Moraes de logo enviado aos Países Baixos a fim de melhor aprimorar os seus estudos teológicos.
Na Holanda, logo aprendeu a língua local e em pouco tempo veio casar-se com a jovem Margaretha van der Heide, irmã do mestre dos pesos de Gelderland. Fixando moradia em Amsterdã transformou-se de guerrilheiro em pregador devotado, conhecido por suas preleções nos púlpitos dos templos contra a doutrina e dogmas da igreja católica romana. Ainda nesta cidade escreve alguns textos científicos e, por conta do falecimento de sua mulher, transfere-se para Leiden onde se matricula na universidade local em 27 de julho de 1640, apresentando-se como Lusitanius Licenteatus Theologiae. Nesta cidade ele tenta a publicação do seu Dicionário da língua Tupi e de sua História da América.
A sua vida afetiva porém toma novas cores quando do seu casamento com a jovem Anna Smits, uma das mais belas jovens de Leiden, que logo se tornou enfeitiçada pelo seu charme de mulato brasileiro.
Apesar de sua aparência de homem "feio, preto, cara de chim", segundo depoimento de Dona Anna Paes, "veio ele a se casar na Holanda com uma das moças mais formosas do país".
O segundo casamento, ao que parece, pouco durou pois o padre apóstata se transfere para Amsterdã e lá tem um encontro secreto com o Núncio Apostólico, junto ao Reino dos Países Baixos, "onde se mostrou arrependido de sua escapada protestante e confessou seus pecados ao representante do Papa que lhe deu absolvição".
Deixando na Holanda mulher e filhos, bem como amigos de prestígio como o historiador Jan de Laet, que tece elogios a sua inteligência, e Coenradsa Burgh, o padre Manuel de Moraes volta a sua terra a fim de explorar o corte de pau-brasil em área que lhe fora arrendada pela Companhia.
Após algum tempo, João Fernandes Vieira sabedor do seu retorno do padre apóstata o manda prender e logo que este chega a sua presença é cometido de grande arrependimento: "prostou-se aos seus pés e com copiosas lágrimas, que lhe corriam sem cessar, lhe pediu encarecidamente que lhe desse uma palavra em seu aposento, com mostras de grande arrependimento, para que fosse seu terceiro para se eximir do castigo que temia".
Abandonando a causa dos flamengos, tornou o padre aos exércitos dos insurrectos servindo com ardor, ao lado de João Fernandes Vieira, a causa da Insurreição Pernambucana, sendo o seu nome anotado por Diogo Lopes Santiago quando da batalha dos Montes das Tabocas, na qual participou exortando os soldados e rezando em voz alta suas orações, até a vitória final em 3 de agosto de 1645.
Após o sucesso das tropas insurrectas em Tabocas e Casa Forte, foi o padre Manuel de Moraes enviado por João Fernandes Vieira à Lisboa, com a missão de narrar a D. João IV os feitos obtidos pelos exércitos da terra contra os holandeses. Durante essa temporada foi ele preso pela Inquisição de Lisboa e ali respondeu o processo, cujo teor vem a ser publicado na Revista do Instituto Histórico Brasileiro (v. LXX, Rio de Janeiro 1908). Da leitura de suas páginas se depreende que o religioso apresentou a seu favor "um perdão do Papa para sua apostasia ao catolicismo", assegurando em seu depoimento "ter sido ele o único jesuíta preso a quem as autoridades nos Países Baixos haviam proibido de regressar ao Brasil, por temerem que levantasse o gentio contra o governo do Recife".
1 RICHSHOFFER, Ambrósio. Diário de um soldado da Companhia das Índias Ocidentais 1629-1632. Tradução de Alfredo de Carvalho. Apresentação de Leonardo Dantas Silva. Prefácio de Ricardo José Costa Pinto. Recife: SEC, Departamento de Cultura, 1981. 210 p. il. (Coleção pernambucana; 1fase, v. 11 a). Fac-símile da. ed. Recife: Typographia a vapor de Laemmert & Comp., 1897.
2 O Relatório de Adriaen Verdonck foi publicado por José Antônio Gonsalves de Mello in Revista do Arquivo Público de Pernambuco. n.º 6 p. 589-680. Recife, 1949.
3 COELHO, Duarte de Albuquerque. Memórias diárias da guerra do Brasil 1630-1638. Apresentação de Leonardo Dantas Silva; Prefácio de José Antônio Gonsalves de Mello. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1981. 398 p. il. (Coleção Recife; v. 12). Inclui mapas de Bandeira e índice onomástico, p. 121.
4 VARNHAGEN, Francisco Adolpho. História da luta com os holandeses no Brasil 1624-1654. Lisboia 1872.
5 PUDSEY, Cuthbert. Diário de uma estada no Brasil 1629-1640. Tradução e leitura paleográfica por Nelson Papavero; TEIXEIRA, Dante Martins. Petrópolis: Editora Index, 2000. p. 69
6 PUDSEY, Cuthbert. Diário de uma estada no Brasil 1629-1640. Tradução e leitura paleográfica por Nelson Papavero; TEIXEIRA, Dante Martins. Petrópolis: Editora Index, 2000. p. 69
7 MELLO, José Antônio Gonsalves de. Tempo dos flamengos: influência da ocupação holandesa na vida e na cultura do Norte do Brasil 3.ed., organizada por Leonardo Dantas Silva. Prefácio de Gilberto Freyre. Recife: FUNDAJ, Ed. Massangana; INL, 1987. 294 p. il. (Estudos e pesquisas, n. 50). p. 177
8 MELLO, Evaldo Cabral. Olinda Restaurada Guerra e açúcar no Nordeste, 1630-1654. 2. ed. Rio de Janeiro: Topbooks, 1998. p. 249
9 CALADO, Frei Manuel. O valeroso Lucideno e triunfo da liberdade. 4. ed. Apresentação de Leonardo Dantas Silva. Prefácio José Antônio Gonsalves de Mello. Recife: FUNDARPE; Diretoria de Assuntos Culturais, 1985. 2v. (Coleção pernambucana; 2fase, v. 13), v. I, 350 p. v. 2, 318 p. il. Inclui índice onomástico. p. 61.