Edição de Domingo, 17 de Agosto de 2003
 
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Entrevista - Daniel Mason

DIARIO DE PERNAMBUCO - Após O Afinador de Piano, você declarou em algumas entrevistas que estava à procura de assunto para um novo livro e cogitava uma viagem para o Brasil. O que o trouxe a Pernambuco?

Daniel Mason - Originalmente, vim para Pernambuco para visitar Caruaru. Eu estava fascinado pela literatura de cordel e haviam me dito que Caruaru tinha uma das mais fortes tradições no cordel.

DP - E o que você acha da literatura de cordel?

Mason - Eu adoro. Acho que é uma forma de arte fascinante, e admiro enormemente os cordelistas, que são devotados a sua arte e já inspiraram tantos outros livros, canções, até filmes. As histórias são engraçadas, tristes, excitantes - tudo o que você pode desejar de uma história.

DP - Como se deu essa primeira viagem para cá?

Mason - Eu me apaixonei por Pernambuco, especialmente pelo Sertão. A cidade de Triunfo se tornou um segundo lar para mim; acho que é uma linda cidade com uma história fascinante. Mas, principalmente, achei extremamente gentis as pessoas que encontrei em todos os lugares, dos funcionários da Pousada Baixa Verde, em Triunfo, onde eu sempre fico, aos historiadores locais que me ajudaram imensamente na minha pesquisa.

DP - Quem o apresentou a Lampião e a Maria Bonita?

Mason - Eu tinha ouvido falar de Lampião, mas nunca lido muito sobre ele até encontrar histórias na literatura de cordel que comprei em Caruaru. A partir daí, aprendi com livros, com os historiadores com quem conversei e com as pessoas que viveram durante o tempo dele.

DP - Quando teve a certeza de que havia achado seu segundo livro?

Mason - Eu estava fascinado pela história de Lampião, mas não tinha certeza de que seria meu segundo livro até uma noite após eu voltar, quando não conseguia dormir pensando na história. Me levantei da cama, comecei a escrever e pensei "essa história não vai me deixar em paz".

DP - Tendo decidido vir a Pernambuco de novo, o que você fez?

Mason - Antes de retornar, eu estudei mais Português e li tantos livros sobre Lampião quanto possível.

DP - O que vem por aí: você escreverá um livro baseado no cangaço e nos cangaceiros ou usará o tema como pano de fundo para sua trama?

Mason - O livro será baseado na época do cangaço, com alguns personagens fictícios e alguns outros reais. Usando personagens da minha imaginação, ganho muito mais liberdade.

DP - No artigo publicado na Folha de S. Paulo, você compara Jesse James a Lampião. Qual a diferença?

Mason - Lampião e Jesse James se assemelham no papel de bandidos heróis, mas na verdade são muito diferentes. Esse é um assunto bem complicado, mas, em poucas palavras, Jesse James era um sulista que havia lutado contra a União durante a Guerra Civil Americana; seu banditismo nasceu de objetivos políticos bastante específicos. Lampião tinha poucos objetivos políticos; sua carreira como bandido surgiu de razões pessoais e também da pobreza generalizada e do desespero de sua época. O mito de ambos está muito vivo, embora nos Estados Unidos, a maioria tenha esquecido a natureza política de Jesse James e ele tenha se tornado uma espécie de Robin Hood. A mesma coisa está acontecendo com Lampião, eu acho. Isso é o que eles têm em comum - o papel de figuras míticas.

DP - Quantas palavras você aprendeu em Português? Qual a mais feia? E a mais bonita?

Mason - Eu não sei quantas palavras! O suficiente para trabalhar no Hospital das Clínicas. Acho que Português é a língua mais bonita que já ouvi, então é difícil escolher uma só palavra como a mais bonita. Eu amo várias palavras do nordeste: caatinga, urubu, sarapatel, cangaceiro. Elas têm sonoridades maravilhosas e evocam magnificamente o que são. Não temos boas traduções para essas palavras em Inglês.


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