Seis meses após fim da greve geral falta arroz, café, farinha e medicamentos simples como aspirina
CARACAS - Quarenta e cinco por cento dos venezuelanos estão dispostos a abandonar o país devido a uma grave crise econômica e ao aumento da criminalidade, revela uma pesquisa realizada pelo instituto Datanálisis. A sondagem, cujos resultados foram publicados pelo jornal El Universal, indica que seis em cada dez jovens venezuelanos com idade entre 15 e 24 anos desejam deixar a Venezuela por causa da falta de perspectivas para o futuro. A avaliação global, divulgada pelo diário, determinou que 45% da população venezuelana quer deixar o país. Em 1997, 28% dos entrevistados manifestavam o desejo de sair da Venezuela.
A pesquisa foi feita entre os dias 21 e 26 de julho. Foram ouvidas mil pessoas em todo o país. A margem de erro é de 3,06 pontos percentuais para mais ou para menos. Uma comparação entre os estratos sociais mostrou que membros da classe média são os mais propensos a deixar o país, com 52%. Os principais destinos de emigração citados pelos venezuelanos foram Estados Unidos, Espanha, México e Canadá.
Seis meses após o fim da greve geral que durante mais de 60 dias paralisou grande parte da atividade econômica do país, e três anos depois da esmagadora vitória do presidente Hugo Chávez nas urnas, a Venezuela continua mergulhada numa gravíssima crise econômica, aprofundada, em grande medida, pela queda-de-braço entre o presidente e o setor privado.
Segundo analistas e líderes políticos a guerra entre Chávez e o empresariado local está impedindo a reativação econômica. No primeiro trimestre de 2003, o PIB despencou 29%. Entre abril e junho, a queda foi de 14%. Mesmo assim, Chávez conseguiu reduzir os problemas de governabilidade e a oposição se fragmentou.
"Temos graves problemas de escassez de alimentos. Faltam arroz, café, farinha. Também escasseiam medicamentos. Semana passada tive de ir a cinco farmácias para comprar aspirinas" contou Carlos Romero, da Universidade Central da Venezuela, um professor universitário que sofre, como a maioria dos venezuelanos, as mazelas de uma crise que parece não ter fim.
Aliados ao governo admitem que as medidas de controle cambial (leia-se suspensão total das operações no mercado de compra e venda de dólares) adotadas no começo do ano por Chávez para conter a fuga de capitais - e a conseqüente redução das reservas do Banco Central -, estão sendo mantidas apenas para limitar a margem de ação das empresas nacionais. Paralelamente, empresas de capital estrangeiro são beneficiadas em licitações estatais, dizem setores da oposição.
"O presidente tem uma visão obsoleta da capacidade do Estado para manter a economia funcionando sem o apoio dos empresários locais" afirmou o congressista Rafael Simón Giménez, do partido Venezuela Avança Movimento de Organização Social (Vamos), que apóia o presidente na Assembléia Legislativa (congresso).
Na visão do economista Miguel Angel Santos, do Instituto de Estudos Superiores de Administração (Iesa), "o controle cambial é hoje uma medida política, e não econômica. Chávez gostaria de ter empresários nacionais como aliados, mas já que não é possível, os ataca". Nos últimos meses, o governo avançou no controle do mercado interno, começando pelos alimentos. Uma estatal importa alimentos de países latino-americanos, que são distribuídos pelo Estado. Para o governo, essa é a única maneira de evitar problemas de abastecimento.
"Se adotamos medidas de controle cambial foi porque não tínhamos outra saída. As reservas do país alcançavam apenas US$ 1,8 bilhão (atualmente atingem US$ 18 bilhões), e era necessário impedir que continuassem caindo. Mas as medidas serão paulatinamente eliminadas quando o governo considerar que isso deve ser feito" afirmou o congressista Juan Barreto, do Movimento Quinta República (MVR, na sigla em espanhol), fundado por Chávez. Segundo ele, os empresários que hoje reclamam estão incomodados porque a chegada de Chávez ao poder significou perda de privilégios.