Edição de Domingo, 17 de Agosto de 2003
 

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Verissimo

Na média

Meu saldo bancário junto com o do Antônio Ermírio de Morais seria um dos mais altos do Brasil. O fato do Antônio Ermírio ser responsável por 98.2 por cento do saldo não afetaria a exatidão da frase. Se eu estivesse num restaurante com outras quinze pessoas e o Bill Gates chegasse para jantar, a renda média dos presentes - a soma da renda de cada um dividida por dezessete - se multiplicaria automaticamente e eu estaria matematicamente rico, pelo menos até o Bill Gates ir embora.

  Antes de me entusiasmar e gritar "Garçom, suspende a Coca "Diet" e traz um Chateau Petrus!", no entanto, eu deveria meditar sobre os perigos do dado mal examinado e da estatística enganosa. Só uma ilusão parecida com a que nos tornaria mais ricos pela simples companhia do Bill Gates explica que, em meio à revolta generalizada com a reforma da Previdência - em boa parte procedente e justa - categorias inteiras se indignem com a diminuição de tetos de proventos que só afetaria uma minoria entre elas, os "marajás" tão execrados na retórica desde que o Collor se elegeu prometendo eliminá-los, há 14 anos.

  Entre os erros e acertos da sua reforma, o Governo pode muito bem lamentar que com o tempo a caça a marajás tenha perdido seu charme político, ou caído de moda. Ganhos altos imexíveis se misturam com a causa legítima de servidores públicos que na maioria ganham uma miséria. Mais uma prova que, como no caso da reforma agrária, que todos apoiam desde que não seja preciso fazê-la, o grande desafio para quem quer mudar o Brasil é conseguir transformar retórica em fato.

  De certa maneira, o fator Bill Gates no restaurante, ou o raciocínio pela média ilusória, é o que tem mantido a paz social no Brasil. Entre os grandes produtores rurais que nunca produziram e ganharam tanto e as hordas de despossuídos no campo, na média estão todos bem. Entre os bancos que nunca lucraram tanto e o comércio e a industria que penam, na média todos progridem. Entre a décima economia do mundo e a pior distribuição de renda do mundo, na média não está tão ruim assim. Entre os poucos que vivem a doce vida brasileira e os milhões que padecem da nossa desigualdade histórica, na média somos felizes. Entre uma Bélgica e uma Botsuana, na média somos, sei lá... Um Brasil. E Antônio Ermírio e eu, na média, não temos do que nos queixar.

Luis Fernando Verissimo








 

 
 
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