Edição de Terça-Feira, 12 de Agosto de 2003
 

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Opinião

Portas trancadas

Inúmeros municípios brasileiros, a exemplo do que sucede com as firmas em fase terminal de falência, estão ameaçando fechar as portas. Não é força de expressão de um absurdo risível. Prefeitos às centenas, para dar ressonância às reivindicações de mais dinheiro junto ao Governo Federal, no âmbito da Reforma Tributária em curso no Congresso, anunciaram, uns, que o expediente, doravante, será pela metade do horário tradicional, outros, que o trancamento das portas é definitivo e completo, até que o Governo Federal e o Congresso se encham de dó da inquietante situação que passam de manifesta insolvência.

  Como estamos numa época em que qualquer pretexto dá lugar à greve, o fechamento parcial ou total das portas de uma edilidade nada mais é que uma forma de protesto, antes de ser reivindicação e, menos ainda, uma reivindicação sensata. O lock-out municipal nem por ser dramático passa a ser convincente.

  Vozes incontáveis, autorizadas e competentes, têm-se enfileirado na defesa dos direitos municipais. O povo, antes de nascer numa província e num país, nasce no berço chamado município. Tudo começa ali, naquela nesga de território, inclusive os direitos e deveres da cidadania. Prestigiar o municipalismo não é, hoje, entretanto, bandeira fácil de carregar, tão difusos e renitentes são os desrespeitos às peculiaridades do município. Todavia, ocorreram casos em que os próprios munícipes abusaram de sua condição privilegiada, como no caso da transformação de simples ruelas com meia dúzia de casas em município. O nome sequer de distritos mereciam, tantos ignotos arruamentos.

  A análise deste ponto é importante para a avaliação do protesto do meio expediente ou da ameaça do expediente cerrado. Não se sabe a conta com precisão, mas é enorme o número de municípios que não dispõem de receita sequer para o pagamento mensal do prefeito, vereadores e funcionários. E, vejam: municípios não foram criados para pagar a remuneração desse pessoal, eles foram estabelecidos para atender carências da população como um todo. Houve épocaem que Assembléias Legislativas tinham só na agenda a votação de moções destinadas a desmembrar municípios, e nada mais. Foi uma coqueluche, foi um carnaval fora de época feito com o olho nas quotas da participação dos municípios nas rendas constitucionais. Não apareceu um estadista com força para conter essa proliferação de municípios que já vinham ao mundo natimortos, sem a menor condição de se sustentarem com receita própria. O que fizeram essas iniciativas insensatas? O que quiseram fazer? Quiseram, sim, transformar - e o conseguiram até certo ponto - a União Federal em mamãe carinhosa disposta a dar o sangue e também a vida para que os filhos, ainda que indesejados, não morressem.

  O lock-out municipal, ainda que seja apenas pantomima para impressionar o mundo político brasiliense, permite sugerir que, em lugar de desmembramentos, façam-se imediatos remembramentos, para que se viabilizem municípios que a experiência demonstrou inviáveis, se isolados. A atual geografia municipal só leva à bancarrota de muitos municípios e ao enfraquecimento das teses municipalistas.

Inquisição sem fogueira

Hely Ferreira
PROFESSOR DE FILOSOFIA E CIÊNCIA POLÍTICA

Durante um período da Idade Média e Moderna o Catolicismo Romano instituiu a chamada "Santa Inquisição". A princípio, a sua proposta era "corrigir"algumas distorções, mas aos poucos foi caindo no extremismo, levando pessoas a morte.

  Na sociedade pós-moderna a inquisição não coloca ninguém na fogueira, até porque oficialmente não mais existe, porém, a forma adotada atualmente é colocar no gelo. Como exemplo atual, temos a senadora Heloísa Helena, que por não corroborar com algumas posturas que estão sendo adotadas pelo Partido dos Trabalhadores, anda sofrendo sanções dos seus próprios companheiros. A postura adotada pelo PT em relação aos recentes pronunciamentos da senadora alagoana, é algo lamentável, principalmente para um partido da estirpe do PT que sempre se gabou por saber conviver com a pluralidade de idéias, por conta das várias tendências.

  Oriundo da luta sindical, o PT se apresentava ao povo brasileiro como um partido que defendia a chamada classe trabalhadora, que ao longo da história sempre sofreu com as atitudes atrozes que foram tomadas pela maioria dos governantes que passaram pelo comando do Planalto Central. Lamentavelmente, bastou assumir o Governo federal, que o Partido dos Trabalhadores demonstrou que muito do que era defendido, era apenas objeto de retórica, para um dia conseguir governar o País.

  Uma das marcas de qualquer regime democrático, por mais frágil que seja, é a liberdade de expressão, entretanto, quando o PT tenta tolher os pronunciamentos da senadora Heloísa Helena, vem confirmar o pensamento de Platão, quando afirmou que a democracia gera o tirano. Por conta da postura inquisitória do partido, o senador Eduardo Suplicy foi solidário a colega, já que o mesmo não corroborou com a decisão que foi tomada em afasta-la da bancada do partido.

  O método coercitivo não combina com a trajetória histórica do PT, assim como a oposição não combina com o PFL, mas como em política tudo é possível acontecer, vamos aguardar qual será à próxima decepção que o povo brasileiro terá em relaçãoao novo governo.

  Quem tem ouvidos ouça, assim falou Zaratustra.

Tiros na democracia

Murilo Cavalcanti
ADMINISTRADOR DE EMPRESAS E EMPREENDEDOR NO RECIFE ANTIGO

É assustadora a escalada de violência em nosso País. Os números não mentem. Em cada final de semana morre mais gente no Brasil do que na insana matança entre palestinos e judeus. No Rio de Janeiro, o Estado está completamente acuado pelo crime organizado. O cidadão perdeu o direito básico da democracia: o de ir e vir, sem sobressaltos. Jovens são assassinados estupidamente e, o que é pior, o País - inerte e os cidadãos perplexos - assistem a essa escalada de violência, sem nenhum plano nacional que possa amenizar, a curto prazo, tamanha selvageria nos grandes centros urbanos.

  As causas de tanta violência são sobejamente conhecidas pela sociedade: desemprego, recessão, impunidade, morosidade da Justiça e, em alguns casos, juizes que vendem sentenças como se vendessem produtos em uma prateleira de um botequim. Muitas outras poderiam ser citadas, infelizmente.

  Não há democracia sem cidadania. A segurança de cada cidadão é um pressuposto básico em qualquer sociedade democrática. A liberdade de sair, de desfrutar espaços públicos, de viver um cotidiano menos assustador, parecem hoje, utopias...

  Se, num passado recente, os brasileiros se uniram para derrubar um regime de exceção, por que não nos unirmos agora, em um grande mutirão, contra a violência? É ingênuo achar que somente os poderes públicos resolverão o problema da violência. Ela começa em cada casa, em cada escola, em cada igreja, em cada rua, em todas as pessoas.

  A Itália, por exemplo, conseguiu derrotar o terrorismo criando duras leis temporárias, que levaram à prisão centenas de terroristas. Na Inglaterra portar arma é um crime grave. Aqui no Brasil, alguém que é pego portando uma arma de fogo não recebe nenhuma punição severa. Poderia ser um crime inafiançável e o seu portador deveria responder por sua (ir)responsabilidade atrás das grades de uma prisão.

  É impossível se encontrar, nos dias atuais, uma pessoa que não tenha um parente, um amigo, que não tenha sido vítima dessa violência assustadora que nos constrange e nos bloqueia a cada dia. E,o que é mais grave, a perspectiva é que cresça mais ainda. Basta. Basta, mesmo! Ainda há tempo da sociedade civil se unir e, junto com os governos municipais, estaduais e o federal, buscar formas de atenuar tamanha selvageria. A democracia agradece!

João Grilo, Severino e Roberto Marinho

Joaquim Falcão
ex-SECRETÁRIO-GERAL DA FUNDAÇÃO ROBERTO MARINHO

Considerando que somos cerca de 170 milhões de brasileiros, quantos de nós teremos lido "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Mello Neto, e o "Auto da Compadecida", de Ariano Suassuna? É difícil fazer estimativa rigorosa. Podemos fazer alguns cálculos aproximados, a partir de alguns critérios. Por exemplo, primeiro incluímos obviamente apenas os brasileiros que sabem ler, alfabetizados, ou seja, excluímos cerca de 15% dos acima de 15 anos. Segundo, incluímos apenas os brasileiros com dinheiro para comprar livros, literatura, ou os que tenham acesso às bibliotecas - considerando ainda que estas bibliotecas, por sorte, tenham estes dois livros. Ou seja, excluímos provavelmente entre 80 e 90% dos brasileiros que não ganham o suficiente para tanto. Terceiro, destes alfabetizados e com recursos, incluímos apenas os que tem o gosto pela leitura, paixão de ler. Ou seja, excluímos sua grande maioria. Em resumo, dos 170 milhões provavelmente uns 200 ou 400 mil no máximo terão lido Cabral e Suassuna. Ou seja, cerca de 0,2%.

  Em outras palavras, provavelmente apenas a elite da elite leu estes dois clássicos sobre nossa cultura popular. A contar nos dedos. Somente a elite leu estes compromissos magníficos para com a maioria do povo sofrido pernambucano, na luta contra a seca, a fome, e o sobreviver no improvável. Somente os que leram, experimentaram a solidariedade na esperança, na perseverança, no humor, na sagacidade, no fazer pernambucano de Pernambuco.

  Quem apresentou João Grilo e Severino aos brasileiros foi Roberto Marinho. Quem criou João Grilo foi Ariano, e quem esculpiu o personagem foi Guel Arraes. Mas quem o fez encantar o Brasil foi Roberto Marinho. Quem criou Severino foi João Cabral, quem compôs as músicas foi Chico Buarque, mas quem fez o Brasil cantá-los na década de 70, foi Roberto Marinho.

  Na verdade, Ariano e João Cabral chegaram ao nosso povo a partir de uma decisão estratégica, tomada logo no início da TV Globo, que deselitizou o acesso à Grilo e Severino. Não importar enlatados. Não comprar filmes americanos. Apostar na teledramaturgia. Apostar no talento do Brasil. Decisão arriscada. Inspirada é verdade no sucesso das novelas do rádio de então, do "Direito de Nascer" até "Jerônimo, o Herói do Sertão". No fundo era um salto no escuro. Foi tentativa de conquistar o que ainda inexistia. Poderia perder. A competição internacional era forte. Os filmes americanos muito mais baratos, até hoje por sinal. Se perdesse iria também a sua casa, única garantia para a aventura que começava. Vencendo, vencia o Brasil. Venceu.

  Faz alguns anos, uma pernambucana, a quem estimo, me disse que líder não é o que sabe mais. Líder é o que tem mais coragem. No caso, a coragem fez o saber. Walter Clark e Boni radicalizaram esta coragem e a transformaram em vitórias sucessivas, até hoje. A liderança de Roberto Marinho se revela e se explica na sua permanente disponibilidade para a coragem. Crescia diante dos desafios. Sintomaticamente, lutou boxe na juventude. Gostava de competir, por lazer, por profissão e por cidadania. E por amor. Pelo amor mutuamente vencedor de Lily Marinho.

  Faz poucos anos, em sua casa no Cosme Velho, conversávamos eu, ele e Tarcísio Meira. Em determinado momento, Tarcísio Meira dirigindo-se a dr. Roberto disse, quase que solenemente: "Quero agradecer ao senhor, aqui pessoalmente, a sua decisão em favor das novelas, de produzir novelas. Com isto o senhor criou o maior mercado profissional para o artista brasileiro". Dr. Roberto sorriu, como se esperasse há décadas por este momento. Comoveu-se. Agradeceu. E acrescentou: "Ao lado do mercado, a TV Globo deu também dignidade e respeito ao artista brasileiro". Assistindo a este diálogo, pensei comigo mesmo: deu emprego. Sem emprego não se tem dignidade.

  Nestes tempos de desemprego, de homogeneização cultural a partir de uma globalização desigual, a tarefa de criar empregos e de defender a cultura nacional não é apenas do governo. É de todos nós. Os de coragem, sobretudo. Coragem de construir o futuro. De inventá-lo, a favor da dignidade do emprego e daaltivez de nossa cultura. Como o fez, no caso, Roberto Marinho, por todos os méritos, pernambucano também.

Eu vi

Cléo Nicéas
CONSULTOR DE EMPRESAS

Numa viagem que fiz vi um menino correndo, não sei se a favor ou contra o vento, mas estava ele entre o pó de um barro vermelho na estrada que me leva para o Norte. Qual será o seu futuro menino da poeira que de enxada na mão tenta tapar os buracos de uma estrada construída com nossos impostos, nesse semi-árido sertão brasileiro, onde crianças brincam correndo atrás de automóveis de luxo ou de camioneiros, que jogam moedas e dinheiro no chão, me fazendo pensar que às vezes é melhor olhar do que ver, mas não posso negar minha origem. Sou nordestino brasileiro, sim senhor, e por você menino vou lutar para desta estrada poder lhe tirar.

  Por enquanto sinto vergonha em olhar nos seus olhos e essa realidade constatar. Desculpe menino dessa estrada, a humanidade é muito lenta para evoluir, cada vez mais pensa em ter e nas estradas por onde andam não tem buracos, viajam de aviões para paraísos fiscais com as verbas que deveriam tapar os buracos das desigualdades sociais.

  Passando por uma cidade eu vi um povo chorando. Procurei saber o que acontecia, foi à morte de uma líder negra, companheiro, que nos pegou de surpresa, era igual a nós apesar de autoridade, nasceu pobre foi líder comunitária, vereadora, deputada estadual e eleita ano passado para a Câmara dos Deputados com a maior votação do Brasil. Seu nome só agora me lembro é Francisca Trindade, partiu cedo, mas multiplicou seu ideal, legado para um povo forte do Piauí.

  Pude ver Teresina recebendo o presidente, que não falou, mas abraçou os parentes da líder que cedo partiu e em seguida foi lançar a nova Sudene que renasce como um rio perene para transformar poeira em conhecimento e a morte por tempo vivido, banindo o nanismo e a desnutrição, trazendo mais produção com justiça social.

  Eu também vi um menino nascendo acordando para vida e logo deitado sobre o corpo da mãe no calor natural de um belo relacionamento. Tudo vale a pena, a poeira dos ventos, o calor de mãos vividas unidas numa oração, a passagem pela nuvem de poeira brotando do chão, o choro da saudade de perder uma líder Trindade, a nova Sudene dos talentos regionais, quando cremos no amor e na capacidade de buscar um futuro melhor para quem muito mais tempo viverá. Creio que esse menino que nasceu mesmo sem ser meu será feliz nesse lugar, é o sonho de um velho Don Quixote que mesmo perto de partir continua por entre moinhos cavalgando, gerando energia eólica para com velas a iluminar um novo caminho para os que nascem e renascem aqui no Sertão Nordestino, com muito orgulho: o meu lugar.








 

 
 
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