Ferrovias esquecidas
Queira Deus não se trate de mais uma promessa que morre sem execução nem satisfação. O Governo Federal parece afinal interessado em providenciar, através de investimentos públicos, a reconstrução da malha ferroviária nacional naquilo que ela tem para ser corrigido e atualizado. Estaria também disposto a construir prolongamentos de estradas de ferros e respectivos ramais, tendo-se como exemplo mais ilustre a ferrovia Norte-Sul e a Ferronorte. É notícia tão auspiciosa nestes tempos bicudos que não dá perfeitamente para acreditar.
O transporte ferroviário prestigiado no estrangeiro é, aqui, no Brasil, historicamente, objeto do mais conspícuo desprezo. O país dispõe de extensões continentais a vencer, e nem por isso chegamos a ter implantados nem 40 mil quilômetros de ferrovias. Para que se tenha termo de comparação da nossa imaturidade ferroviária com o que existe no mundo, tenha-se em conta que a malha ferroviária instalada na terra alcança 500 mil quilômetros. O total brasileiro, do qual se devem deduzir milhares de quilômetros inativos, não chega aos magros 8% das implantações no resto do mundo.
Isto sucede em nosso país, a despeito de ser sabido por todos quais são as nossas distâncias a vencer e qual o preço por quilômetro da carga transportada em caminhões e nos trens - nos trens muito mais em conta. Na hora das grandes opções de nossa política de transportes, ninguém se lembra, ao que parece, de ponderar que esse item é dos que hoje mais agridem, botando para cima, o chamado Custo Brasil que se leva a muita conta nos trâmites do comércio exterior.
Não é possível que a nossa proverbial insensibilidade quanto aos assuntos ferroviários não leve em conta que dentro de pouco mais de dois anos estaremos a produzir nada menos que 100 milhões de toneladas de soja (a maior parte exportável). Se as 100 milhões de toneladas a que nos referimos fossem transportadas de trem, o país experimentaria, só aí, uma economia da ordem de US$ 450 milhões! Mas, não. Habituamo-nos a nos servir de caminhões movidos a diesel, e com isto perdemos no custo em si do transporte e na utilização pouco nobre de um combustível ilustre. Hoje, porque utilizamos à larga o transporte rodoviário de nossas principais riquezas, aquela soja prodigiosa chega à Europa a US$ 80 a tonelada, enquanto a norte-americana chega por menos da metade desse valor. No país competidor, as grandes massas de mercadoria são transportadas ou pela via pluvial, ou pela ferrovia.
Não se trata, apenas, de mercadorias, só de coisas materiais. As pessoas, os indivíduos também perdem muito com a indisponibilidade dos trens de ferro. O turismo anda de ônibus e de aviões. Poderia andar também nas ferrovias, se fossem suficientes e bem equipadas, como de resto acontece no mundo civilizado. Em toda a Europa e todos os Estados Unidos, o trem concorre palmo a palmo das distâncias com o carro, o ônibus, o navio e o avião. No Brasil, e só no Brasil, o transporte ferroviário não teve nem está ainda a ter vez, na programação dos planejadores. Mesmo cidades, que poderiam andar em parte sobre os trilhos de um metrô, descuram esse meio asseado e expedito de transporte, privilegiando sistemas careiros e poluidores.
Tudo isto é uma lástima que agora o Governo central promete remediar.