Edição de Sexta-Feira, 8 de Agosto de 2003
 
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A overonha

Lula Queiroga
lula@lulaqueiroga.com.br

Fernando de Noronha desprograma completamente o seu código de referências, pricipalmente pra quem nunca esteve lá antes, como eu.   Noronha não nasceu junto com o planeta.   Nasceu depois, mas conserva intacta em sua pedra vulcânica a pureza do início dos tempos. É como voltar no passado e cair na infância da Terra.

Vacilei. Foi mal. Semana passada não deu pra entregar a coluna. Viajei e tive uma overonha, o apelido que algumas pessoas costumam dar à overdose de exposição à atmosfera da ilha de Fernando de Noronha.

  Eu fui a trabalho. O arquipélago completa 500 anos no domingo, 10 de agosto, e fomos fazer um minidocumentário sobre a ilha principal e seus habitantes. De 6 da manhã às 10 da noite, cinco dias seguidos. Liguei de lá pra Lydia, editora do caderno Viver, avisando que não ia conseguir escrever nada. Falta de tempo, menti.

  Um lugar como Noronha desprograma completamente o seu código de referências. Quebra a cadeia molecular do seu raciocínio estabelecido, pricipalmente pra quem nunca esteve lá antes, como eu.

  Noronha não nasceu junto com o planeta.

  Nasceu depois, mas conserva intacta em sua pedra vulcânica a pureza do início dos tempos.

  É como voltar no passado e cair na infância da Terra. Tá tudo ali do jeito que sempre esteve, a aparição do ser humano foi apenas um detalhe de percurso. A descoberta,as sucessivas invasões de holandeses e franceses, o uso carcerário, o Estado Novo de Getúlio, a base americana, a ditadura militar, nada disso conseguiu afetar a majestade do seu ecossistema. A ilha vence o homem. Que vai aprendendo finalmente a preservá-la.

  Diferente de outros arquipélagos oceânicos, Noronha veio a ser habitada há muito pouco tempo. Quando Américo Vespúcio desembarcou em 1503 não encontrou nenhum vestígio de presença humana. O ilhéu não descende de nativos, não tem uma predominância étnica específica. Mas é orgulhoso do seu patrimônio.

  Se bem que em Noronha, o homem é que é patrimônio da ilha.

  A distância do continente, a convivência com pessoas do mundo todo, faz do morador um indivíduo com nação própria.

  Os pesquisadores que chegam diariamente para estudar pedras, tartarugas, atobás e golfinhos, muitas vezes passam batidos pelo ilhéu. Até porque são poucos, mil seiscentos, não dá nem pra lotar o teatro Guararapes.

  Aí é que tá. Noronha é um laboratório de convivência. Hoje tem celular, internet e Boeing. Imagina no tempo em que o meio de comunicação mais eficiente era o telégrafo? E mesmo hoje, com todas essas facilidades, as milhares de milhas de oceano que separam a ilha de Recife ou Natal criam uma limitação para os habitantes, quase todos oriundos do continente, um isolamento do resto do mundo no mínimo perturbador. É o que eles chamam de neuronha. Mas o ilhéu em geral é tranqüilo, hospitaleiro, aprende desde cedo a importância do respeito ambiental. Como diz seu Salviano, o morador mais antigo: "é um povo polido". Ou dona Nanete, nascida há 73 anos na ilha: "às vezes tem que ter uma briguinha pra quebrar um pouco essa paz, mas o noronhense é bom na educação".

  Noronha tem a menor BR do mundo. A 363 tem apenas 7,8 quilômetros de extensão e liga os dois lados opostos. De bugre, em dia de movimento, gasta-se menos de 10 minutos. Muita gente tem parabólica mas o telejornal local da TV Golfinho é a grande audiência da ilha. Porque eles querem se ver na TV, os acontecimentos do dia, quem chegou e quem saiu, as novidades do pedaço. Aliás, na última noite em que passamos lá eu olhei a TV e estava passando o Jornal Nacional. A cara de Willian Bonner, os tanques israelenses na Cisjordânia, a manifestação dos sem-terra, aquilo me soou como algo distante, um mundo desnecessário, uma informação alienígena.

  Minha sorte foi ter vindo embora no dia seguinte.

  Meu metabolismo já estava se adaptando e talvez eu fizesse como Ju Medeiros, meu amigo e famoso cantor da ilha, que já rodou meio mundo mas não sai de lá nem amarrado. Teria dado um jeito de levar minha família, arrumava um trabalho, um visto de permanência e ia me misturar às árvores, às areias, virar mabuia, arraia, seixo, ribaçã, tubarão. Dissolver meus versos nas espumas, deixar o tempo passar lento e por fim me fundir ao cascalho dessa ilha-santuário, onde todo dia o sol nasce e morre no mar.

  Parabéns, velha amiga. Muitas felicidades, muitos milhões de anos de vida.








 

 
 
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