Edição de Sexta-Feira, 8 de Agosto de 2003
 
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Desmundo revive o Brasil dos degredados

Adaptação do livro de Ana Miranda, filme de Fresnot é ambientado em 1570 e falado em português arcaico

Luciana Veras
Da equipe do DIARIO

Do Festival de Brasília, em novembro de 2002, Desmundo (Brasil, 2002), estréia principal deste fim de semana, partiu com dois candangos: atriz coadjuvante para Berta Zemel e trilha sonora para o maestro John Neschling. Foi pouco. À película de Alain Fresnot merecia ser outorgado ao menos outro prêmio, direção de arte para Adrian Cooper, e a vitória de Simone Spoladore ou Osmar Prado como intérpretes principais não seria de todo errada. Festival, no entanto, é assim, e cumpre lembrar o que nele ocorreu por conta do hiato de nove meses entre Brasília e o lançamento no Recife.

  Esse tempo de espera dado pela distribuidora Columbia, que tende a amainar o interesse do público, será combatido pela adaptação de Fresnot (homem de mil funções - editou Marvada Carne, produziu Kenoma, dirigiu Ed Mort) do romance homônimo de Ana Miranda, publicado em 1997. As armas são várias, afiadas e bem manejadas pelo diretor e sua equipe. Ambientado em 1570, num Brasil com poucos anos de vida e povoado pelos degredados portuguesesescorraçados pela Coroa, e falado num português arcaico (tanto que há legendas nas cópias), Desmundo impressiona, de início, pela recriação precisa.

  Trajes, cenários, locações, tudo colabora para que a fotografia de Pedro Farkas possa ser algo mais do que desviar de fios, postes e outros sinais de modernidade, dever tão comum em produções nacionais que se voltam para o passado remoto. Descrita por Alain Fresnot como "inaptidão atávica", essa dificuldade do cinema nacional em convencer o espectador nos seus filmes de época não afeta Desmundo, que, orçado em R$ 4,5 milhões, é mais convincente estética] e visualmente do que O Xangô de Baker Street e Paixão de Jacobina.

  Isto alcançado pelo olhar atento do espectador, resta espaço para perceber, antes mesmo da densidade da trama, a grandeza do elenco. Simone Spoladore (Lavoura Arcaica) vive, com sua característica intensidade, o cerne da trama, a religiosa Oribela. Vinda de Portugal com outras adolescentes para, através do matrimônio, dar sexo aos homens quemigraram para a colônia, ela não escapa do casamento com o comerciante Francisco de Albuquerque (Osmar Prado), um abastado dono de engenho que tem com a mãe Branca (Berta Zemel) uma relação tortuosa e conflitante.

  Nada é tão fácil, ou ninguém é inocente, para usar a frase escolhida pelo diretor para resumir o filme no material de divulgação. Além do desencaixe de Oribela com o novo mundo e a realidade inóspita que lhe imputaram, a ela surge Ximeno Dias (Caco Ciocler), um vendedor de escravos com interesses mais nobres no grupo de meninas-objeto, em especial nela. As pontas desse triângulo nada eqüilátero se atam, ainda, a uma criança problemática, a índios, às rédeas de dona Brites (Beatriz Segall), que escolheu as gajas e agora as supervisiona com aspereza, e a um país em formação, cindido por etnias que colidem e, em vários momentos, convergem.

  Desmundo se sustenta nos atores e na acertada opção do diretor de manter Oribela como fio condutor do enredo. No entanto, percebe-se, em determinado momento, umadespencada no ritmo da narrativa no instante em que Fresnot utiliza o mesmo recurso pela segunda vez. Se não chega ao fim com o mesmo fôlego com que se inicia, também não capenga ou resvala para soluções fáceis e mais acessíveis e deixa o espectador com um filme de época bem feito e intimista, espécie rara na cinematografia nacional pós-retomada.

Serviço

Desmundo (Brasil, 2002). Direção: Alain Fresnot. Com Osmar Prado, Simone Spoladore, Caco Ciocler.
Onde e quando: Nos multiplex Recife 9 e Tacaruna 5 e no cine Rosa e Silva 2, a partir de hoje (ver horários no roteiro)








 

 
 
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