A cola de sapateiro
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) está a iniciar estudos para tirar da cola de sapateiro um tipo de hidrocarboneto, cuja aspiração provoca efeitos alucinógenos. A cola de sapateiro é hoje abertamente utilizada pelos meninos e meninas de rua, e não testemunha o feio episódio em nossas ruas quem não quer ver.
Os estudos e avaliações sob referência, repita-se, acham-se na fase embrionária, não ocorrendo, ainda, os pertinentes trabalhos de laboratório que, um dia, irão definir o know-how indispensável a preservar as qualidades intrínsecas do produto, para a viabilização do desempenho dos profissionais remendões, após a retirada da substância atrativa que alimenta o vício daquelas crianças abandonadas à própria sorte.
A cola provoca um grande problema de saúde pública, evidentemente. Da mesma forma quanto o álcool mereceu da agência sanitária o devido cuidado, mediante a obrigatoriedade da adição do gel, para com ele diminuir o número e a gravidade dos acidentes que antes provocava, a cola desapateiro está a exigir da autoridade pública todo o especial cuidado, a fim de que se restrinjam as conseqüências de sua indébita utilização. Acetatos, toluenos, xilóis, cloriotrilenos e substâncias equivalentes do ponto de vista da saúde humana provocam danosas conseqüências sobretudo ao funcionamento do cérebro.
O DIARIO DE PERNAMBUCO, adepto desta e de outras campanhas análogas que venha a encetar a autoridade pública, no fito de proteger a saúde coletiva, registrou em suas páginas, com abundância de pormenores, o quanto sucede a quem aspira o alucinógeno do tipo cola de sapateiro. No primeiro momento, sucede a excitação e a euforia. O viciado esquece os problemas que o atormentam eventualmente. Depois, sobrevêm período de depressão, e é quando a pessoa fica desorientada e em confusão, perdendo em muitos casos a visão ocular e o autocontrole. Num terceiro momento, acentua-se o quadro depressivo, falha a coordenação ocular e motora e acontecem não raramente alucinações. Finalmente, o vício provoca o augede suas conseqüências maléficas, com a quarta fase, ou seja, o momento em que a pessoa viciada pode chegar à total inconsciência. Daí estará a um passo das convulsões, do coma e da morte. A medicina diz, ainda, que a cola de sapateiro e solventes de modo geral podem provocar lesões incorrigíveis no fígado, nos rins e, igualmente, nos nervos periféricos que controlam os músculos do corpo, sobretudo os músculos cardíacos.
Não se pode alimentar a ilusão de que a eventual retirada de substâncias alucinógenas da cola de sapateiro equivalha a erradicar o mal pela raiz. A medida de ordem sanitária requer a adoção de outras providências da autoridade pública na ordem social, das quais é melhor exemplo a retirada das pequenas vítimas dos nossos logradouros e o respectivo encaminhamento às salas de aula, com aviso e também recompensas a distribuir entre os seus pais ou pessoas de alguma forma responsáveis. Isto porque, desaparecendo a cola para o uso indevido pelos meninos de rua, logo surgirão outros envenenamentosde que se aproveitam os vícios não de todo debelados.
Que se concluam o mais pronto possível os estudos e avaliações laboratoriais que nos levem à supressão do alucinógeno da cola de sapateiro.
A figura emblemática de Roberto Marinho
João José Rocha Targino
JUIZ CORREGEDOR AUXILIAR
Noite de 6 de agosto de 2003, em um nosocômio do Rio de Janeiro, deixa esta vida o dr. Roberto Marinho para, no dizer do ex-presidente Getúlio Vargas, entrar para a História.
Personalidade de Imprensa, como preferia se definir, deixa a todos nós órfãos do seu empreendedorismo, de sua inteligência e, sobretudo de seu patriotismo. Ao longo de sua vida, quase secular, constituiu monumental obra física e humana.
A primeira, evidencia-se pelo império constituído pelas Organizações Globo. O feito de cunho humanístico, de dimensões bem superiores ao de caráter físico, revela-se no duplo aspecto - da responsabilidade social, com que sempre o dr. Roberto Marinho deixou permear suas ações, a ponto de legar ao Brasil a Fundação Roberto Marinho, que tão relevantes serviços tem prestado à nossa pátria - assim como nos elevados investimentos feitos, a todo tempo, no seu corpo funcional, numa visão de que o profissional valorizado, valoriza a empresa .
A Globo, organizações de mídias falada, escrita, televisada e novas mídias, se constituem em meios de irradiação cultural, cujo raio de alcance vai além Brasil, fazendo com que, nenhum brasileiro, em algum dia de suas vidas, tenha deixado de assistir à TV Globo, lido o jornal O Globo, ouvido a rádio Globo ou navegado pela Globo ponto com.
Essa gigante da comunicação, teve na pessoa do emérito jornalista Roberto Marinho, seu grande alavancador, sendo notável sua capacidade de conciliar o aspecto administrativo com o da produção jornalística e literária.
A obra de um homem é o que o projeta além da vida. Dr. Roberto Marinho é imortal, não porque dignitário de título honorífico conferido pela Academia Brasileira de Letras, mas sim, porque edificador de obra com contributo para as gerações passadas e futuras.
O imortal aqui retratado, pelas excelsas virtudes com que pautou sua vida foi, ao longo das últimas décadas, figura de destaque no cenário nacional, a ponto de tornar-se consultor e confidente de figuras de alto relevo da política brasileira.
Aos pósteros que o sucederão, o grande desafio de perpetuar tão memorável obra.
Ética no turismo
Gilvandro Coelho
PRESIDENTE DA UNIÃO DOS JURISTAS CATóLICOS DE PERNAMBUCO
É fácil reconhecer que o combate à violência é instrumento necessário, mas insuficiente na luta contra a pobreza e a miséria que vêm crescendo no País. A nova Sudene, que prenuncia a retomada do desenvolvimento do Nordeste, será instrumento valioso nessa árdua batalha, que passa pela reestruturação da família e já conta, em seu favor, com as potencialidades naturais de uma paisagem diversificada e um clima ameno banhado pelo sol, especialmente se as confrontamos com o frio que, nessa época, vai se estendendo por toda a Europa, afugentando grande número de pessoas, notadamente idosos.
Nesse quadro, entendemos que o turismo poderá ser importante indutor de desenvolvimento desde que organizado como atividade industrial e obedeça a princípios éticos que devem presidir o relacionamento entre os homens e destes com a natureza em que habita. Ele revela aos homens maravilhas dessa natureza diversificada, estimula a harmonia social aproximando pessoas e gerando empregos, mostra as criações da cultura, da ciência eda tecnologia, ressalta soluções dadas por outros povos aos seus problemas, revela defeitos da sociedade nacional não percebidos e a incentiva a corrigi-los.
Destarte, planejado e industrialmente executado ele pode trazer benefícios de ordem econômica, cultural e social porque alimenta a fraternidade universal a que se referiu Aristóteles quando definiu o homem como animal gregário e contribui para o desenvolvimento integral da pessoa humana. Ao alimentar a solidariedade, produz o crescimento almejado e respeita a dignidade do povo visitado. O turista deseja conforto e acolhimento amigável. Em regra, não quer luxo. No plano econômico foi chamado "a indústria sem chaminé" porque ao muito que o turista gasta com alimentação e serviços no país visitado, ele somente leva pequenas lembranças típicas. E para ficar satisfeito exige dos que o recebem apenas conscientização dos benefícios que traz e segurança interna eficaz. Sob o aspecto moral, requer vigilância para que não fomente o indesejável turismo sexual que facilita viagens de pessoas que ganham em moeda forte, americana ou européia, para satisfação de apetites carnais sob o manto do câmbio.
Estas reflexões certamente ajudarão a compor o quadro dos compromissos éticos a serem assumidos com a atividade turística. Ela será amplamente debatida na Jornada Mundial de Turismo a ser realizada em setembro próximo que tem como tema "O turismo, elemento propulsor da luta contra a pobreza para a criação de empregos e a harmonia social". O Papa João Paulo II, proclamado "O missionário itinerante", por sua centésima viagem apostólica internacional, em mensagem sobre o evento destacou "a necessidade de respeito à dignidade do povo visitado em sua cultura e nos seus costumes com uma atitude de dialogo para promover o desenvolvimento integral de cada um" (L'Osservatore Romano, ed. em espanhol, 11.07.2003).
Uma história feita de muitas vozes
Neuma Costa
PROFESSORA DA UNICAP
Vencer distâncias significa, historicamente, um desafio para o homem: as grandes navegações cruzaram mares, na busca de terras nunca dantes exploradas; viagens no lombo de animais, como na ficção, Fabiano, Sinhá Vitória e dois meninos; jornadas a pé para as celebrações religiosas, enfim, êxodos eventuais ou definitivos marcaram a História da Humanidade. Todas essas viagens foram cosendo retalhos da vida e construindo modestas ou fabulosas sagas, contando sempre com a cumplicidade da estrada.
Foi num momento de tristeza que rumamos pela BR-232, com destino a Terra Nova, no sertão pernambucano. Motivo: sepultar a mãe, Josina, 83 anos, seis filhos, todos migrantes (teve um que voltou, tal qual Ulisses, para os aconchegos da casa paterna). Mal cruzamos o município de Caruaru, "vitrine" dessa rodovia, deu-se o sucedido. "É por aqui mesmo que se chega a Salgueiro?" "Tá no rumo certo, moça, e que Deus proteja vocês!" Difícil, naquelas circunstâncias, analisar o não dito na fala daquele popular. Ademais, somos acostumados às vozes do matuto, amistosas por convicção e não por finezas programadas.
Seguir em frente para o funeral da mãe passou a se constituir tarefa sobre-humano, bem ao contrário do conforto no transcurso Recife-Caruaru. Cadê a BR-232? Trezentos quilômetros de buracos, alternados por breves oásis de asfalto, representaram para o cortejo nada menos que um pesadelo. Viajávamos em comboio, tensão crescente cada vez que sumia um. Pneu furado. Mais adiante, sumia outro. Pneu furado. Noite adentro trocando pneu a cada vinte quilômetros. "Tão precisando de ajuda?" Bendita disponibilidade do sertanejo, por isso não nos assustamos quando vimos um carro aproximando-se devagarzinho, fazendo a volta, distanciando-se para em seguida retornar, certeza vinha em socorro. Só demos pela intenção, com a chegada da polícia que de longe espreitava manobras suspeitosas, frustrando-se o assalto (a mãe, mal chegou ao céu já mostra serviço).
"Subam depressa, a estrada é perigosa!" Era uma caçamba de retardatários, peladeiros,perambulando pelos botecos da beira do caminho, muitos botecos, curiosamente acoplados a borracharias. O pragmatismo do capital não respeita espaço nem cultura, morde de Bush a severinos. "Posso mandar um borracheiro de Serra Talhada?" "Varzinha fica mais perto." As vozes misturavam-se, entre o clamor dos viajantes, deboche de alguns, solidariedade de outros tantos.
Cadê a BR-232? Caruaru é uma potência, como diz o amigo Givaldo, mas a cidadania é universal, e o que nos impressiona é o silêncio moribundo de milhares de pessoas que precisam circular por essa rodovia: a negócio, para visitar parentes, entre em contato com as bases políticas, entre outras razões. Não dá para esconder a idéia se formando, de como seria útil uma parceria com os sem-terra; os sem-estrada bem que despertariam do torpor dos mortos.
As demandas sociais não surgem por acaso, são efeitos da "precisão", gritos dos que foram privados de seus direitos fundamentais, acessíveis apenas a uma minoria privilegiada, no caso em foco, os que andam pelos ares, imunes à aflição provocada pelos buracos, que já saíram do solo, transformados em tatuagens incrustadas na pele. E a alma agreste suportando, como se uma dor a mais não fizesse diferença. Em pleno Século XXI, paradoxalmente, instala-se o determinismo rodoviário. Fernando Pessoa tem razão: "navegar é preciso, viver não é preciso..."
Bem nascidas e...
Álvaro José Menezes da Costa
DIRETOR TÉCNICO DA COMPESA.
Mal criadas. Assim poderíamos nos referir às companhias estaduais de saneamento. Bem nascidas porque descendem do mais belo e puro amor, dos que desejavam melhorar os indicadores de saúde pública no Brasil dos anos sessenta, através da redução do déficit no abastecimento de água e, com certo pudor como convinha a uma paixão daquela época, da implantação de sistemas de esgotamento sanitário. Justo e bom, este casamento tinha tudo para dar certo, pois, contava com os ingredientes necessários ao início de uma vida de objetivos comuns e desejados ardentemente afinal, se buscaria a diminuição da morbidade e da mortalidade decorrentes da falta de água tratada, do uso de água contaminada, da inexistência de sistemas de abastecimento de água, dos esgotos correndo a céu aberto pelas ruas, tudo a partir da prestação de um serviço mais ágil e eficiente, mesmo sendo público, porém, dali para frente, conhecido como empresa de economia mista. Era o início de uma vida nova para garantir um futuro melhor.
O nascimento foifestejado com muito dinheiro e um belo plano de vida com um planejamento cuidadoso, metas audaciosas, formas de gestão dos serviços e controle de seus resultados. Em sua bem nascida trajetória, nos primeiros anos ainda, como é normal quando não há problemas, elas tiveram um elogiável desenvolvimento e crescimento. O lema era: construir e ligar os sistemas de abastecimento de água, sendo novos, a operação era uma mera decorrência de sua existência. Não existiam praticamente limites para reduzir o ímpeto expansionista da implantação de sistemas de abastecimento de água nas áreas urbanas brasileiras, o que foi muito bom por um lado. Os problemas chegaram quando a fase de crescimento foi sendo ultrapassada e o natural amadurecimento de todo processo indicava, que algo de errado havia sido feito ou deixado de ser.
Muitas causas podem ser buscadas para justificar falhas, erros, enganos ou mesmo decisões tomadas durante o complexo processo de criação e construção de algo que precisa ser vivo e flexível como um serviço público, que devia ser para o público. Apesar de todo o dinheiro disponível na fase empreendedora e mesmo na de formação destas companhias, saneamento no Brasil nasceu com cara de serviço para o povo, para o povo pobre, para o povo dependente do Estado, dependente do poder político. Em resumo, um importante serviço inferior se comparado com os bem nascidos e muito bem criados serviços de eletricidade e telecomunicações, sempre tratados como sinônimo de desenvolvimento econômico, industrialização, riqueza, competência empresarial e boa gestão mesmo sendo públicos como as companhias estaduais de saneamento. Para estes tudo era mais simples se comparado com a missão de gerenciar um serviço que todos devem obrigatoriamente receber, não apenas e simplesmente por um ditame legal e sim, por uma elementar questão de sobrevivência. Enquanto nos serviços de eletricidade e telecomunicações as empresas eram respeitadas e os serviços mais valorizados em todos os sentidos, o saneamento e suas empresas ou serviços municipais eram e são lembrados pelo que deixam de fazer ao invés do muito que já realizaram e ainda realizam.
Com o passar dos anos, entretanto, o amadurecimento decorrente do equilíbrio que se alcança com a idade adulta não chegou aos prestadores dos serviços de saneamento, embora, tenha chegado a sociedade que a cada dia cobra o resgate de uma dívida sócio-econômica que se amplia. Sem referencial, sem recursos, sem um órgão de controle e regulação, estes serviços viram-se entregues à própria sorte, alternando períodos de sucesso com outros de retumbante fracasso. Assim as companhias estaduais chegaram a fase adulta sem saber para onde ir ou onde ficar, o que é mais grave ainda. Hoje, apesar de tudo, não resta dúvida que elas foram e são uma das boas saídas para a prestação de serviços de saneamento como podem ser também, em outra escala, os serviços municipais. A esperança hoje é que o presidente Lula siga querendo fazer agora aquilo que ele impediu nos últimos oito anos, também no saneamento. Não dá para tratar uma questão cujo valor é inestimável como uma coisa sem valor simplesmente porque religiosa e passionalmente se espera que a melhoria da qualidade dos serviços ocorra sem parcerias, gestão integrada e compromisso político com mudanças.