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O Brasil, do início das organizações Globo, era um país pequeno, agrário, que dependia basicamente do café. Tinha uma incipiente indústria têxtil. Um sistema político primitivo, viciado, montado pelas oligarquias rurais, que entrou em colapso na revolução de 30
A crise econômica do Brasil em 1925 era gravíssima. O país, em estado de sítio, via a desintegração do sistema político das oligarquias. A economia do mundo estava para entrar na pior crise do século: a depressão de 29. Foi nesse ambiente que Roberto Marinho iniciou sua saga empresarial. Durante 78 anos desta história, a marca do empreendedor é forte, indiscutível.
Roberto Marinho tinha 20 anos. O Globo fora fundado em julho pelo pai, Irineu Marinho, que morreu em agosto. De agosto a outubro, a valorização cambial foi de 40%. O presidente Artur Bernardes adotara uma política de arrocho monetário e fiscal para debelar a inflação e jogou o país numa grave recessão. A produção industrial caiu 24% no ano seguinte. A dívida externa disparou. O país vivia uma década de turbulências políticas que desembocaram na revolução de 30. O preço do café, produto que dominava a balança comercial, despencou. O mundo foi da bolha ao colapso da Bolsa de Nova York, e entrou em depressão.
Que chance tinha uma empresa que nasce no meio dessa tempestade e tem um comandante assim tão jovem? Que chance tem uma empresa que enfrenta, nos seus cinco primeiros anos de vida, uma crise interna, uma depressão internacional, o colapso de um sistema político que termina em revolução?
A história empresarial de Roberto Marinho é uma
sucessão de impossibilidades. A começar do produto que
escolheu vender: informação num país em regime de exceção, com 60% de analfabetos.
Qualquer analista econômico diria que não havia chance alguma de sucesso.
Roberto Marinho atravessou a turbulência inicial e outras ao longo das décadas seguintes construindo o maior conglomerado de comunicação do Brasil, um dos maiores do mundo.
O Brasil, do início das organizações Globo, era um país pequeno, agrário, que dependia basicamente do café. Tinha uma incipiente indústria têxtil. Um sistema político primitivo, viciado, montado pelas oligarquias rurais, que entrou em colapso na revolução de 30.
Faltavam 16 anos para a instalação da Usina de Volta Redonda, 18 anos para surgir a Vale, 27 anos para a criação do BNDES, 29 para nascer a Petrobrás e 40 anos para ser criado o Banco Central no Brasil.
O PIB cresceu em 69 dos 78 anos da história da empresa, acumulando um crescimento de de 4.548%, mas enfrentou duros momentos de recessão.
O Brasil virou uma das maiores economias do mundo, mas passou por colapsos cambiais, moratórias, superinflação, hiperinflação e moedas.
Neste ambiente, Roberto Marinho sonhou, correu riscos, cresceu, perseverou e, sobretudo, empreendeu.
Ele parecia ter uma certa atração pelos momentos difíceis. Comprou a primeira rádio em 1944, no meio da guerra. Instalou a Rede Globo de Televisão no ano de 65, quando o país debelava um surto inflacionário com medidas recessivas que derrubaram em 4,5% a produção industrial. E ele tinha, quando fez a Globo, 61 anos, num país que ainda hoje tenta aprovar a idade de aposentadoria para 60 anos.
Hipotecou a casa para financiar o novo investimento. Puro risco: a televisão tinha 15 anos no Brasil, era um produto pouco acessível à população, e o mercado era dominado pelas empresas já instaladas. Ele competiu e cresceu num mercado que se expandiu de forma vertiginosa. Hoje há televisores em 89% dos lares brasileiros.
Na política, o Brasil no qual Roberto Marinho construiu sua empresa viveu turbulências e transformações tão fortes quanto as econômicas. O país passou por duas violentas ditaduras, mas construiu uma sólida democracia de massas. Na eleição do presidente Artur Bernardes, estavam aptos a votar apenas 2,9% dos brasileiros. Na eleição do presidente Lula, 65% dos brasileiros.
Uma geração de jornalistas, hoje já de cabelos brancos, conta para os jovens, que viram as portas do Globo abertas, em plena ditadura, para jornalistas perseguidos pelo regime militar.
Há momentos na história dos povos em que o tempo se acelera. Foi isso que aconteceu no Brasil nas últimas oito décadas. O país era agrário, industrializou-se; era rural, urbanizou-se; era um país com aglomerações esparsas, isoladas na sua vasta dimensão geográfica e integrou-se pelo poder das comunicações. Roberto Marinho escolheu um ramo empresarial no qual se contou essa história. Os jornalistas fazem isso e ele sempre se definiu como um jornalista. Mas ocorreu com ele um mistério: a história que contou foi feita também por ele. Ao superar percalços econômicos e aproveitar-se dos bons momentos, Roberto Marinho estava deixando sua marca na construção do Brasil como ele é hoje.
Como explicar que uma empresa nascida em momento tão adverso, entregue, pela fatalidade, a mãos tão jovens, tenha tido o sucesso que teve?
Só há uma explicação: o espírito empreendedor do seu condutor, que sabia estar fazendo algo extraordinário.
Ele escreveu certa vez, quando se comemorava o aniversário do Globo, que não queria fazer "mirrada e sucinta a
recordação da aventura, tão maravilhosa quanto acidentada vivida pela empresa.
O maior mistério da economia é saber de que são feitos os empreendedores. Por que eles são tão raros? Por que entre eles tão poucos são bem sucedidos? Sabe-se que eles sonham, ousam, correm riscos, não se abatem, perseveram, desafiam e criam valor onde, antes, não havia nada. É uma sorte tê-los. O Brasil perdeu um dos maiores empreendedores dos últimos cem anos.