Waldimir Maia Leite
Neste 14 de Julho de 2003, lembro aqui cenas parisienses da época de outono (mês de novembro). Cenas que as vivi, em diversas ocasiões do meu calendário de viajante.
Outono parisiense.
As folhas das árvores caem, nessa época outonal. Amarelecidas. Mas os serviços municipais de limpeza circulam pelas ruas, diuturnamente, para subtrair os cadáveres de montes de folhas secas.
Muitas - e muitas vezes - fui gourmet, na bela e inesquecível capital francesa, da época de outono e de outras épocas. O Sol posto no prato, a faca, o garfo, o guardanapo. O apetite de ver. O preto dos olhos (como nos quadros de Picasso): duas azeitonas espetadas no rosto.
O tráfego intenso de veículos, em Montmartre e Sacré Coeur, escorrendo sobre os boulevards, como o vinho saboroso, dentro do copo, a caminho dos lábios.
Descruzo os braços. Começo a deglutir a bela cidade (lembranças de hoje, evidentemente) triturando-a entre os dentes. Depois, faço a digestão, caminhando a superfície do outono (memória) às margens do Sena.
Pois este 14 de Julho não é uma data apenas dos franceses. Mas do mundo todo. Nas lembranças de hoje, vou e volto pela rive Gauche. Pelos canteiros, constato minha face, como se os usasse em forma de espelho. Barcos cruzam as águas (impoluídas) do rio Sena.
Caminho, de mãos fechadas nos bolsos e olhos abertos, pelos Invalides, depois passo por Carroussel e termino estacionado na ponte Neuf. Ali me contemplo, outra vez. E vou, logo mais, comer qualquer coisa, no metrô Saint Michel.
Recordo aqui, mais uma vez, aquilo que disse Montesquieu: "C est Paris qui fait les français" ("É Paris que faz os franceses"). E formulo, neste 14 de Julho de 2003, uma indagação: Por que o Recife... não faz os recifenses?
Waldimir Maia Leite
é membro da Academia Pernambucana de Letras