Tom performático dos desfiles e odes à cidade de São Sebastião marcaram o Fashion Rio verão 2004
Na última semana, o Fashion Rio encerrou a maratona oficial da moda no Brasil, que contou nesta edição Verão 2004 com 72 desfiles (44 da São Paulo Fashion Week e 28 da semana carioca). O clima das apresentações no Museu de Arte Moderna (MAM), no Aterro do Flamengo é um pouco diferente da Bienal, no Parque do Ibirapuera. Os dois principais motivos são - óbvio - o cenário da cidade. E, segundo, o tom performático de alguns dos desfiles, que deixam a mostra de roupa com um forte apelo teatral.
Foi o que se viu, por exemplo, na quarta-feira, quando a Blue Man montou uma cena tipicamente carioca para mostrar seu beachwear. Na passarela produzida pela diretora de teatro Bia Lessa haviam funqueiros, garotas de praia e "noivas de Copacabana" em puro momento de paquera e sensualidade. As modelos, de repente, arrancavam o vestido do corpo para dar início ao desfile, de fato, e mostrar os maiôs e biquínis da marca. Na platéia, a imprensa internacional adorou essa amostragem antropológica da fauna made in Rio.
Gostaram também da bateria da escola Imperatriz Leopoldinense na entrada da sala Copacabana, durante o show da Sta. Ephigênia. A boca de cena recebeu uma montagem de caixotes de madeira para falar dos morros da coleção Favela Couture. E as manequins entraram embaladas por sambas de Carmem Miranda, Bezerra da Silva e Martinho da Vila.
CÍTRICOS - A Salinas, na segunda-feira, foi outra a acionar um ufanismo típico dos que nascem na terra de São Sebastião, fazendo uma ode à cidade que vivia a sexualidade livre até o início dos anos 80, quando estourou o som da Blitz (trilha do desfile) e as primeiras notícias sobre a Aids. A cartela de cores também segue essa linha new wave - o movimento que durou até meados dos 80 - e foi responsável pelo exagero de pinks misturados a verdes cítricos e azuis turquesas. Algo já visto no SPFW e confirmado no Fashion Rio.
A Coven fez uma viagem até essa mesma época e ainda acrescentou os vestidos baby-doll, shorts de malha e sobreposições em tons vibrantes. Algo também visto na LeiBásica, assinada por Ronaldo Fraga. Acontece que o estilista sempre pega essas tendências globalizadas e deixa tudo com sua cara divertida. Dessa vez, ele resgatou ícones pop como o Playmobil e a banda Kraftwerk em suas estampas gigantes.
Mas as expectativas do evento eram mesmo para a reformulação que a Totem já tinha anunciado e a estréia de Danielle Jansen como nova criadora da Maria Bonita. Desde a morte de Maria Cândida Sarmento, no final do ano passado, Danielle, que criava os acessórios da MB, assumiu a equipe de criação. Segundo Iesa Rodrigues, repórter de moda do Jornal do Brasil e amiga pessoal de Cândida, a nova aquisição tem tudo para dar certo.
O estilo, pelo menos, é bem parecido: cores neutras, formas amplas e muita discrição. O contrário da Totem que abandona o seu look balneário sem compromisso para investir em um visual mais moderninho e fashionista, com muita força nas t-shirts e camisas bem coloridas. Algo para fazer qualquer dia ensolarado. Seja ele passado no calçadão da Avenida Atlântica ou no rush da Avenida Paulista.
A cobertura do ViverMulher no Fashion Rio Verão 2004 ganhou uma colaboradora com know how internacional em moda: a empresária pernambucana Regina Lundgren. Ela é dona do Espaço Lundgren, a loja mais fina que as cariocas já conheceram, com muitos Emanuel Ungaro, Valentino, Dolce&Gabbana, Prada e Yves Saint Laurent nas araras. Acostumada a freqüentar as semanas de moda em Paris e Milão desde sempre, estréia aqui no caderno como comentarista de desfiles. "Acho muito bacana o trabalho dos jornalistas de moda, que travam uma batalha heróica para assistir a tudo o que é lançado a cada estação. Confesso que não teria tanta disposição. Por isso, prefiro escolher as marcas preferidas e me concentrar em cada detalhe do que mostraram".
Na última semana, Regina elegeu três grifes made in Rio para fazer este trabalho. "A primeira delas foi a Sta. Ephigênia, porque achei curioso o fato de Marco Maia e Luciano Canale terem escolhido o tema favela como condutor de sua moda sofisticada. Mas os dois conseguiram juntar o luxo e a pobreza com maestria. Em alguns momentos, a ousadia até lembrava os shows produzidos por John Galliano, que cria para Christian Dior. Essa semelhança é vista quando a modelo entrou com uma trouxa de roupa na cabeça, enquanto Galliano colocou um travesseiro nas coleção de inverno 2002".
A coincidência, segundo ela, termina por aí. "As peças da Sta. Ephigênia têm um toque muito autoral, com estampas ótimas e um trabalho bem cuidado em seda. Até superou minhas expectativas". No dia seguinte, a terça, foi dedicado à Lenny. "A moda praia chiquérrima, exclusiva para aquelas que tomam sol em iates de muitos pés ou viagem para o mediterrâneo para pegar uma corzinha. Os Maiôs e biquínis chegam com muitos recortes, mas não é nada tão conceitual e inovador como fez a Rosa Chá, na São Paulo Fashion Week". Ela lembra as celebridades presentes:"Rodrigo Santoro, Carolina Dieckman e Tufi Duek estiveram lá".
Tão concorrido quanto o desfile da Lenny foram as filas A e B de Carlos Tufvesson, na quinta. "Ao contrárioda maioria, ele acha uma heresia transformar desfile em show. Suas apresentações são sempre muito limpas, para que a roupa vire o foco das atenções. A abertura foi feita com uma retrospectiva dos últimos anos de sua alta-costura em tons de branco, bege e preto. A seguir, surgiu um sportwear muito refinado, mixando sarja de um brilho leve com All Star e muita t-shirt. A etiqueta trabalhada com cristais Swarovski deu um up nas roupas, enquanto o casting trouxe apenas as tops", conclui Regina.