(Atualizado no dia 14/07/2003)
 
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Diversidade é o grande trunfo do FIG

Festival de Inverno de Garanhuns mescla com competência atrações de maior e menor apelo popular

Luciana Veras
Enviada especial

GARANHUNS - Duas noites bem distintas na temperatura, no público e nas atrações dos diversos palcos comprovaram o que talvez seja o item principal do menu oferecido pelo Festival de Inverno de Garanhuns: a diversidade. Na praça Guadalajara, nos parques Euclides Dourado e Pau Pombo, no teatro Luiz Souto Dourado, nas ruas da cidade mais concorrida do Agreste Meridional pernambucano, era possível ver gente com salto alto, meninas de botas e casacos pretos e garotos de camisa xadrez. Sinal de que, mais tarde, quando os shows começassem, seria difícil separar as tribos.

  Tome-se como exemplo a sexta-feira. Os amigos e parceiros Lula Queiroga e Lenine se apresentaram em horas e palcos diferentes, porém foram vistos por uma platéia heterogênea. Lula tocou no palco pop do Euclides Dourado após Zantoriff (em sua primeira vez diante do público) e Ortinho - cujo repertório, tirado de Ilha do Destino, deixou os fãs com dúvidas sobre onde anda aquela instigação costumeira dos tempos de Querosene Jacaré. No início, o compositor/músico/roteirista e produtor pernambucano, Lula Queiroga, parecia pouco à vontade; aos poucos, quando fluíam as canções de Aboiando a Vaca Mecânica e o show engrenava, já se observavam flancos na platéia, que migrava para curtir Lenine. Era, contudo, uma platéia misturada, com gente que sabia as letras de cor e outros que se arvoravam a dançar com timidez.

  O interessante é que também na Guadalajara percebia-se essa mescla. Havia os fãs habituais de Lenine, que respondiam em coro a Hoje Eu Quero Sair Só, de O Dia em que Faremos Contato, Paciência, de Na Pressão, ou O Homem Dos Olhos De Raio X, do último Falange Canibal. Havia também os que imploraram Leão do Norte e receberam-na de presente no bis, após Lenine convidar o brother Lula e os dois fazerem de Alzira e a Torre uma ponte para cantar trechos de Rappa, Nação Zumbi e Jorge Ben. O resultado foi um show competente, bem executado e coeso, com direito a interferências virtuosas do guitarrista Junior Tolstoi. Para não derrapar, Lenine apostou nos hits indispensáveis, como Agora é Que São Elas, hino de novela das seis, que agradou ao público de várias bagagens e saiu coroado.

SAMBA - Se Lenine se deu bem, Jorge Aragão, principal nome do sábado na Guadalajara, é o rei do 13º FIG até agora. E vai ser complicado bater o sambista que adentrou o palco à uma da manhã do domingo todo de branco, lencinho na cabeça e cavaquinho na mão, e botou muita gente para deixar a garrafa de vinho no chão e arriscar uns passinhos. Na noite de sábado, as tribos se cruzaram apenas no palco pop ou na tenda eletrônica do Euclides Dourado; lá na Guadalajara, a multidão que se espremia e enfrentava uma chuva grossa e irritante era formada por gente que curtia pagode ou o sambinha do fundo de quintal.

  Foram todos recompensados com Aragão cantando "o que é isso, meu amor, venha me dizer, isso é fundo de quintal, é pagode pra valer" no início e, logo na terceira música, engatar Eu e Você Sempre - aquela do "aí foi que o barraco desabou". E aí foique a Guadalajara desabou mesmo. Não havia espaços vazios e, nos lotados, não havia ninguém parado. Numa programação extensa, dividida em dez noites que começam às 21h e invariavelmente atingem duas da manhã (isso sem contar os palcos instrumentais e as peças...), é preciso ofertar ao público iguarias finas como Flora Purim e Airto Moreira, opções de gosto indiscutível, como Lenine, e os pratos de resistência. Foi isso que Jorge Aragão, que ainda mandou ver a Ave-Maria no ritmo de chorinho e terminou com Coisinha do Pai e Vou Festejar, representou no sabadão.


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