A povoação, conhecida como Povo dos Arrecifes, quase que por teimosia se fixara na ponta de uma estreita faixa de areia, cercada pelas águas do mar e dos rios que, por inúmeras vezes, tentaram dali expulsar os seus moradores. Era o Lugar do Recife, assinalado no mapa de João Teixeira Albernaz I, "Carta da costa Leste do Brasil, entre a Vila de Olinda e Paço da Figueira", publicado no Livro que dá razão do Estado do Brasil (1618).
Em sua História do Brasil, concluída em 1627, frei Vicente do Salvador descreve o Recife de então como "uma povoação de duzentos vizinhos com uma freguesia do Corpo Santo, de quem são os mareantes mui devotos, e muitas vendas e tabernas e os passos de açúcar que são lógeas grandes onde se recolhem os caixões até se embarcarem nos navios".
Esta povoação, que se chama do Recife, está em oito graus, uma légua da vila de Olinda, cabeça desta capitania, aonde se vai por mar e por terra, porque é uma ponta de areia como ponte, que o mar da costa que entra pela dita boca cinge ao leste, e voltando pela outra parte faz um rio estreito que a cinge ao oeste, pelo qual rio navegam com a maré muitos batéis e as barcas que levam as fazendas ao Varadouro da vila, onde está a alfândega.
Protegido das vagas do Atlântico por uma muralha de arrecifes, o porto natural abrigava caravelas, naus e, mais para o final do século XVI e início do século XVII, as famosas urcas que vinham da Europa em busca de nossa maior riqueza: o açúcar.
Foi o açúcar o grande impulsionador econômico dessas conquistas; açúcar que, em 1583, era produzido por 66 engenhos. A situação econômica da capitania, no início do século XVII era, no dizer do frei Vicente do Salvador (c. 1564/c. 1636-39), das melhores com o porto mais freqüentado do Brasil e uma renda de vinte mil cruzados, "afora o pau-brasil e dos direitos sobre o açúcar".
A importância do porto do Recife, nas relações comerciais com o norte da Europa, é ressaltada em grande parte dos documentos do século XVI e início do século XVII, graças sobretudo ao açúcar que passara degênero de alto luxo a produto acessível às classes de menor poder aquisitivo. Tal riqueza despertou a cobiça dos piratas e corsários, tornando as caravelas (navios pequenos e mal-armados), em presas fáceis. Informa K. R. Andrews que, entre 1589 e 1591, Portugal perdeu para corsários ingleses nada menos que 34 navios, em sua maioria procedentes dos portos de Pernambuco e da Bahia. Em 1589, segundo fonte jesuítica, num período de nove meses, foram apreendidos por ingleses e franceses 73 navios carregados.
Com tamanha riqueza, o Povo dos Arrecifes veio a despertar as atenções de corsários ingleses que, sob o comando de James Lancaster, então à frente de uma frota de sete naus, tomaram de assalto a povoação em 31 de março de 1595, nela permanecendo por pouco mais de trinta dias. Daqui partiram com a presa de quinze navios com o que havia de mais precioso no seu porto, inclusive as alfaias da igreja do Corpo Santo.
A fim de se prevenirem do ataque dos corsários, os portugueses passaram a utilizar, para o transporte do açúcar e demais produtos, um tipo de navio, de origem alemã, bem conhecido nos Países Baixos, chamado de urca (em alemão e holandês hulk). Navio grande e pesado, bem-armado, ideal para o transporte das grandes cargas, como revela José Antônio Gonsalves de Mello, veio a ser bastante utilizado na navegação de então. Entre 1595 e 1605, saíram do porto do Recife para Lisboa 34 desses navios carregados de caixas de açúcar.
Aos olhos dos forasteiros, porém, a paisagem era tão-somente as águas do delta,o verde dos manguezais, a vegetação nativa dos morros que circundavam a planície e, mais ao interior, os engenhos de açúcar com os seus canaviais safrejando no massapê das várzeas do Beberibe, do Jiquiá, do Pirapama e do Capibaribe. Nada de muito especial, nenhuma beleza extraordinária, naquele burgo insalubre onde os habitantes de Olinda pisavam com cuidado para não sujar suas custosas sedas.
Paisagem bem de acordo com o apógrafo atribuído a Diogo de Campos Moreno, escrito em cerca de 1612 sob o título Livro que dá razão do Estado do Brasil, que ao descrever o mapa de João Teixeira Albernaz I, assim se expressa:
Meia légua ao sul desta vila (Olinda), como se vê na carta já dita, no ponto C, está o porto do Recife, onde as embarcações entram e estão recolhidas ao abrigo de todos os ventos. Tem este sítio, em uma língua de areia, que quase é salgado, uma vila de muitos vizinhos, com outro mosteiro dos mesmos capuchos de Santo Antônio, fora uma paróquia muito ordenada e rica, na qual se recolhem os açúcares e fazendas que se carregam e descarregam de toda a capitania; tem de grande nesse porto as duas fortalezas que na dita carta se assinala no ponto D e no ponto E, tem de presídio ordinário o que se vê adiante, pago da Fazenda de Sua Majestade; esta vila pode ser muito grande e muito forte por razão do assento no salgado, cercado de água.
Neste lugar do Recife ajuntam-se de contínuo, mais de duzentos homens do mar, fora os da povoação, e estes, a todas as horas, com suas armas acham-se prestes em suas embarcações.
O forte novo da Laje, que guarda o mar e a barra no ponto D, fundou-se à custa dos moradores e do senhor da terra; está em toda perfeição acabado conforme a sua capacidade, porque o reedificou e lhe fez muitas coisas que lhe faltavam o governador-geral Matias de Albuquerque, é obra do engenheiro Francisco de Farias, diligência de Alexandre de Moura, traço de Tibúrcio Espanochi e mandado do governador-geral Diogo de Menezes, que em seu tempo se começou e acabou; faltam-lhe duas colubrinas de alcance; estas lhes faz o governador-geral Matias de Albuquerque, de quarenta quintais cada uma, porém podem-se remediar e fazer-se na casa da fundição desta capitania, de peças antigas, que hoje não servem. O governador-geral Matias de Albuquerque mandou fundir algumas.
O forte Velho, que se vê no ponto E, fundou-se à custa do povo e do senhor da terra; foi obra de um padre da Companhia, chamado Samperes, mas como se fundou sobre a areia, sem grade e em tempo de poucas assistências, cada dia vai caindo um lanço.
Assim era o Recife, até os primeiros anos do século XVII. Um porto por excelência, o de maior movimento da América Portuguesa, escoadouro principal das riquezas da mais promissora de todas as capitanias: Pernambuco.
MELLO, J.A. Gonsalves de. In Revista do Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano, v. LVIII, Recife, 1993.