Floresta ameaçada
O Governo Federal anunciou a disposição de liberar, nos próximos dias, a importância de R$ 20 milhões (são milhões, não são bilhões absolutamente) para o revigoramento dos serviços de fiscalização florestal na Amazônia. A área amazônica definida como preferencial para a ação protetora que se impõe é o chamado Arco do Desflorestamento que abrange vastas porções de floresta virgem no Estado do Pará, norte do Mato Grosso e Estado de Rondônia no seu todo, onde se têm tornado grandemente danosas, nos últimos dois biênios, as surtidas de madeireiras que ali atuam na mais completa ilegalidade, mas, a céu aberto, para quem quiser ver.
É preciso dizer que não é o caso de condenar apenas esse desmatamento indiscriminado que desconhece os mandamentos comezinhos de metodologias de reposição a que se dedicam madeireiras daqui e de fora, sem mencionar as queimadas, na maioria ilegais também, que se praticam para a fundação de semeaduras de espécies nem sempre aclimatadas à realidade amazônica. A fundação de extensas capineiras para a alimentação do gado vacum é igualmente culpável de graves, de imensas devastações.
Os nordestinos sabem de cor e salteado o que é devastação florestal e a soma dos prejuízos subseqüentes que acometem as populações desta Região. Exceção do Estado do Maranhão, que é meio nordestino e meio amazônico, os demais Estados não dispõem sequer de 20% de suas áreas cobertas de matas. Pelos critérios menos pretensiosos de segurança ambiental e ecológica, cada uma de nossas províncias deveria ter pelo menos 25% dos respectivos territórios florestados. No Brasil, somos tristes pioneiros desse medonho pioneirismo só muito depois copiado na Amazônia.
Não é assim surpreendente que a sensibilidade nordestina se veja exacerbada, toda vez em que tomba um exemplar centenário à força do machado bronco de que falava o poeta, na Amazônia distante. A desertificação brasileira começou aqui, e não é possível imaginar que um dia não venha a ser corrigida como penhor da sobrevivência das gerações futuras que temos o dever de preservar, preservando a Natureza; e também imaginar que se deixe desertificar o portentoso pulmão do Brasil e do mundo que é a Amazônia.
Não constitui exagero prever o pior. Pelo andar da carruagem, o desmatamento anual, que estava em declínio há oito ou dez anos, voltou a crescer na Amazônia. Com a ajuda de satélites e outros meios de tecnologia avançada, sabe-se agora que o desmatamento amazônico no biênio 2001-2002 foi 40% superior ao constatado no biênio precedente. Essa que podemos chamar de criminalidade florestal terá saído de 18.166 quilômetros quadrados para 25.476 quilômetros quadrados entre os dois períodos considerados.
Os leitores há de verificar que o problema da defesa ambiental e ecológica da Amazônia tem a dimensão que excede a numerologia costumeira, alcançando por isto mesmo uma dignidade assombrosa em meio a tantos outros problemas nacionais igualmente graves. Antes de nos parecer um paradoxo, a atribuição da verba de R$ 20 milhões para reforço da fiscalização que se impõe não passa de uma piada de extremo mau gosto. Esses R$ 20 milhões vezes sete ainda seriam insuficiente banalidade, se de fato quer o país defender, como deve defender, o grandioso patrimônio.