"Quando os alísios empurravam da Europa e África as caravelas não buscavam farol de luz mas farol opaco: esta pedra Na terra de mais luz da Terra foi um farol cego este Cabo: às avessas, farol sem luz para navegantes encandeados."
João Cabral de Melo Neto
Leonardo Dantas Silva
Para o navegador espanhol, quem primeiro a vislumbrara, era esta a terra de mais luz da Terra. Com as suas retinas ofuscadas pelos dois sóis, no seu poente por detrás das montanhas daquele continente recém-descoberto, Francisco YaÑez Pinzón, avistara uma ponta de pedra que se adentrava ao mar, a qual chamou de Santa Maria de la Consolacion. Na descrição de Capistrano de Abreu: Naquele 26 de janeiro de 1500, a água do mar apareceu turva, a sonda registrou fundo de dezesseis braças, e a costa assomou próximo. Para ele velejaram, nela desembarcaram e tomaram conta da região em nome da coroa de Espanha, proclamando o feito em vozes altas, cortando galhos e entalhando nomes nos troncos das árvores, fazendo mouchões de terra, bebendo água, chantando cruzes. De gentes viram simples pegadas: a este primeiro ponto chamaram de Santa Maria de la Consolacion, hoje cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco. 1
Dentro na Vila de Olinda habitam inumeráveis mercadores com suas lojas abertas, colmadas de mercadorias de muito preço, de toda a sorte em tanta quantidade que semelha uma Lisboa pequena. A barra do seu porto é excelentíssima, guardada de duas fortalezas bem providas de artilharia e soldados, que as defendem; os navios estão surtos da banda de dentro, seguríssimos de qualquer tempo que se levante, posto que muito furioso, porque têm para sua defensão grandíssimos arrecifes, a onde o mar quebra. Sempre se acham nele ancorados, em qualquer tempo do ano, mais de trinta navios, porque lança de si, em cada um ano, passante de 120 carregados de açúcares, pau-brasil e algodão. A vila é assaz grande, povoada de muitos e bons edifícios e famosos templos, porque nela há o dos Padres da Companhia de Jesus [1551], o dos Padres de São Francisco da Ordem Capucha de Santo Antônio [1585], o Mosteiro dos Carmelitas [1588], e o Mosteiro de São Bento [1592], com religiosos da mesma ordem.
Preocupou-se o primeiro donatário não somente com a implantação da agroindústria açucareira, mas também com a educação da juventude e, muito particularmente, com a catequese dos indígenas, tendo para isso entregue aos padres da Companhia de Jesus, em 1551, a ermida de Nossa Senhora da Graça por ele construída na mais alta elevação da vila de Olinda. Coube aos padres Manoel da Nóbrega e Antônio Pires dirigir o nivelamento do terreno e nele iniciar a construção, junto à primitiva igreja, do edifício do Colégio de Olinda, obras estas que se prolongaram por toda a segunda metade do século XVI, e de Horto Botânico destinado à aclimatação das plantas exóticas que eram transportadas da Europa e do Oriente para Pernambuco.
Também outras ordens religiosas procuraram estabelecer os seus conventos em terras da nova capitania. Depois dos Jesuítas (1551), seguiram-se os Franciscanos (1585), Carmelitas (1588) e Beneditinos (1592).
1 ABREU, José Capistrano de. O Descobrimento do Brasil. 2 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília, INL, 1976. p. 149.
2 ABREU, José Capistrano de. op. cit. 28.
3 GUEDES, Max Justo. "As primeiras expedições de reconhecimento da costa brasileira", in História Naval Brasileira. v. 1 cap. 4. Rio de Janeiro: Ministério da Marinha, 1975.
4 ABREU, José Capistrano de. Op. cit. p. 23.
5 COSTA, F. A. Pereira da. Anais Pernambucanos. v. 1. Recife: Fundarpe; Diretoria de Assuntos Culturais, 1983. p. 29-38 (Coleção Pernambucana 2fase, 2 1).