A paz americana
Não são poucos os adágios populares que ganham notoriedade e até aceitação universais. O uso do cachimbo faz a boca torta será um deles. A lembrança do adágio vem a propósito da ameaça feita recentemente pelo Presidente George Bush, dos Estados Unidos, aos dirigentes do Irã, tendo por pano de fundo a possibilidade de o país asiático dominar o ciclo completo do processo atômico e com isto passar a fabricar plutônio, para noutro passo adiante construir bombas atômicas e os respectivos meios de lançamento sobre alvos distantes.
Como a campanha norte-americana sobre o Iraque se constituiu num "passeio" de poucos dias de duração, tal a superioridade do armamento ocidental, do que resultou, no final da mãe de todas as batalhas, a derrocada de Saddam Hussein e seu regime, o Presidente ianque declarou agora, alto e bom som, para quem desejasse ouvir, e com todas as letras, que não permitirá que o Irã fabrique ou detenha em seu poder, a qualquer pretexto, armamento nuclear nenhum.
Dá-se, no caso, a falha do objetivo nobre porque se utilizaram instrumentos impróprios. O Presidente norte-americano poderia ter convocado a deliberar sobre a ameaça iraniana o Conselho de Segurança das Nações Unidas, porque a matéria diz respeito, e muito, à segurança de um conjunto de nações. Poderia ter acionado um embaixador especial e mandado a advertência através de correspondência formal que expressasse o temor ianque de ver o mundo mais nuclearizado do que já é. Poderia ter-se servido dos préstimos de um país com bom trânsito na corte dos aiatolás, em Teerã. Enfim, para o bom encaminhamento de assuntos assim graves da arena internacional, o pacífico arsenal diplomático é fértil em opções menos belicosas, voluntaristas e inusitadas.
Ameaças como essa de um país soberano e outro também soberano em nada contribuem para o saneamento da atmosfera internacional. Não constituirá amadorismo pensar que elas aceleram a tendência para a beligerância, quando o de que precisa o mundo conturbado de hoje é de paz, nada menos que a paz. Demais disto, por melhores que sejam as intenções do sr. George W. Bush, inexiste justificativa no Direito Internacional para o exercício das ameaças agora vibradas contra o Irã, quando as nações em peso se compromissaram - inclusive os Estados Unidos - a dirimir as desavenças através das Nações Unidas, isto é, pacificamente.
Ninguém em sã consciência haverá de apoiar o Irã, a Coréia do Norte ou qualquer outro país, se deliberam fabricar e armazenar armas nucleares. Mesmo programas pacíficos para o uso da energia atômica, programas comprovadamente pacíficos, não podem ser levados adiante sem a fiscalização atuante e cuidadosa dos organismos internacionais. Fora dessas lindes, a comunidade das nações reprovará programas nucleares que se baseiem, apenas, na tradição de um ou outro país em agir permanentemente de boa fé. Na matéria, a experiência passada e o comprometimento em relação ao futuro não são suficientes. Faz-se mister colocar as coisas no papel e assiná-lo com o testemunho das demais nações.
Mas o mundo nãoaceita gendarmerias que se auto-estabelecem no pressuposto da prática até mesmo do bem. A História não aceitou a pax romana. Não aceita o século a "paz americana". O poderio colossal das armas norte-americanas confere a mr. Bush muitos direitos, menos o de ferir, quando se sente incomodado, a soberania das outras nações.