Edição de Quinta-Feira, 12 de Junho de 2003
 
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Estranheza e maestria em Durval Discos

Durval Discos provoca riso e cisão. Causa reações de alegria e irritação. Como um disco de vinil muito bom, daqueles guardados por décadas, cujos lados se encontram em estados opostos: o A é de audição limpa, o B possui dezenas de arranhões e pula justo na faixa predileta. Isso porque, tal como seu slogan - "tudo na vida tem um lado A e um lado B" -, o filme de Anna Muylaert despertou críticas ferozes, como aconteceu em Gramado, ou aplausos extensos, como ocorrido aqui. Entre acolhidas díspares, paira uma certeza: Durval Discos, estréia do sábado do Cinema da Fundação, propicia tudo menos indiferença.

  Por coincidência, a película é lançada na cidade no mesmo fim de semana de O Homem que Copiava, num cruzado na cara dos que ainda insistem em fustigar o cinema nacional. São dois dos melhores filmes produzidos no País na última década, dirigidos por dois inventivos autores que, também por acaso, encarregaram-se dos roteiros. Da mesma forma que o gaúcho Jorge Furtado cria personagens em várias e críveis camadas, a paulistana Muylaert desnuda tipos engraçados e curiosos em meio à paisagem acolhedora de Pinheiros e de um sobrado que abriga uma loja e uma casa.

  Nesse local convivem Durval (Ary França) e sua genitora, dona Carmita (Etty Fraser), rodeados de centenas de LPs. O cabeludo quarentão não abre mão da bolacha preta e afugenta clientes por causa disso. Mãe e filho coabitam em marasmo e tranqüilidade, alimentando o anacronismo nas relações comerciais e afetivas. Até que uma empregada novata, Célia (pequena mas ótima participação especial de Letícia Sabatella), põe um ingrediente novo na modorrenta receita familiar: uma menina de não mais de cinco anos, Kiki (Isabela Guasco).

  O inusitado e inesperado da situação - o frescor de uma garota alterando por completo a rotina de uma família - arremessa o filme para outra direção. Porém, e aí tomba a argumentação dos críticos que nada enxergam em Durval Discos, tal jogada não é nula ou sem propósitos ou inventada como um mero artifício. Quando percebe, o espectadorse vê dentro de uma espiral em que arroubos esquizofrênicos, Novos Baianos, humor negro e Pérola Negra se mesclam. Se prestar atenção, ele se dá conta de que tudo foi sinalizado através de um texto amarrado, palatável, interpretado por um elenco apropriado e coeso, do qual é difícil destacar apenas um.

  Em suma: Durval Discos casa música, enredo e imagem com maestria, amarrando uma história em que os versos das canções compõem a narrativa, bem mais do que em Alta Fidelidade, ao qual é comparado e do qual ganha de lavada. Ria, surpreenda-se e se assuste. A estranheza deste filme é extremamente salutar. (L.V.)

Serviço

Durval Discos (Brasil, 2002). Direção: Anna Muylaert. Com Ary França, Etty Fraser, Isabela Guasco. 12 anos.
Onde e quando: No Cinema da Fundação, a partir de sábado.


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