cinema brasileiro
Luciana Veras
Da equipe do DIARIO
Se durante quatorze anos Jorge Furtado foi lembrado como o diretor do curta-metragem Ilha das Flores, obra essencial para o cinema brasileiro, a partir de 2003 ele terá outra fonte constante de orgulho, elogio, reverência. Não que o longa Houve uma Vez Dois Verões, curtas como Barbosa e seus projetos em televisão não o houvessem posicionado entre os melhores cineastas em atividade; é que, como O Homem que Copiava, em cartaz no Recife e em todo Brasil amanhã, Furtado reafirma sua criatividade e constrói um filme-tese de toda sua obra, um catálogo de referências textuais e narrativas que se revela uma experiência sem precedentes na produção cinematográfica contemporânea.
Descrito pelo próprio como uma "colagem", o segundo longa-metragem de um dos fundadores da Casa de Cinema de Porto Alegre encanta sem recorrer a fórmulas manjadas ou justamente por espantá-las. A apresentação do protagonista, o operador de fotocopiadora André (Lázaro Ramos, talvez o mais completo ator jovem em atividade), subverte quaisquerregras dos manuais de roteiro. Ao longo de 30 minutos, o público vê sua rotina, ouve sua voz numa narração entrecortada por poemas, teses, informações. Não é somente um off; é a explanação da colagem que é André, sem grana, acumulando pedaços de informações das xerox que tira e apaixonado, secretamente, por Sílvia (Leandra Leal).
Então nós, espectadores, aprendemos que André é afim de Sílvia, que espera a mãe se deitar toda noite enquanto desenha no quarto, que por anos esperou o pai que saiu de casa, que troca bobas idéias como a colega Marinês (Luana Piovani), que através dela conhece Cardoso (Pedro Cardoso), que está disposto a tudo, tudo mesmo, para arranjar os R$ 38,00, valor do robe de chambre que o fez trocar as primeiras palavras com Sílvia. Assim mesmo, aos montes, os dados são jogados, nocauteando uma platéia acostumada a convencionalismos e a personagens rasos presos em roteiros formais e tão consistentes como um fiapo.
O que torna O Homem que Copiava tão fascinante é algo mais do que a intertextualidade que o permeia - Shakespeare, J.D. Salinger, Kurt Vonnegut, televisão, quadrinhos, escolha a sua influência - ou o desempenho primoroso de todos os atores, que se doam à causa de Furtado e se despem de vícios ou aparências (Luana, por exemplo, convence até no "gauchês"). É a defesa que Furtado faz de seus personagens, engedrando-os numa trama que se escalona até chegar a um ápice coerente com o mapa delineado no roteiro. Sempre se questionou a veracidade e a profundidade dos diálogos e das personas do cinema brasileiro. Nunca poderá se indagar isso a respeito do trabalho de Jorge Furtado, em especial nesse filme.
São vários filmes em um, vários fios que se cruzam não somente em um, mas em diversos pontos da narrativa, várias pistas que nem sempre se elucidam, várias qualidades para um filme ou até mesmo um texto só. Acredite: O Homem que Copiava é mesmo melhor do que qualquer coisa já escrita sobre ele.
Serviço
O Homem que Copiava (Brasil, 2003). Direção: Jorge Furtado. Com Lázaro Ramos, Leandra Leal, Pedro Cardoso, Luana Piovani.
Onde e quando: Nos multiplex Recife e Tacaruna, a partir de amanhã.